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domingo, 5 de junho de 2011

Chamamento


Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

TatiT AQUI

quarta-feira, 30 de março de 2011

Quando você viu seu pai pela última vez?



Texto: Micheliny Verunsck, Ovelha Pop.

O título do filme gritou essa pergunta para mim na prateleira da videolocadora e, depois de um turbilhão de lembranças comprimidas em alguns segundos, eu disse a mim mesma: ok, sei que vou chorar, mas preciso ver esse filme.
 
Por trás da pergunta sugestiva que dá título ao filme dirigido por Anand Tucker em 2007, está a história real do poeta e crítico literário britânico Blake Morrinson e do seu pai, Arthur. E qual é a história? Após a notícia de que seu pai sofre de um câncer devastador, Blake (interpretado por Colin Firth) revê a trajetória da sua relação com o pai, um sujeito pouco convencional e por vezes politicamente incorreto, com quem viveu uma relação conturbada mas nem por isso menos amorosa.

Pequenas trapaças, piadas mal colocadas, uma amante onipresente são as coisas que, num primeiro momento, aparecem com maior relevo a respeito do cárater de Arthur (o sensacional Jim Broadbent). Porém se fosse apenas isso o personagem seria "chapado",  desenhado numa única tonalidade. Mas ao contrário, Arthur é também, e apesar das suas contradições, um homem com virtudes inquestionáveis e no qual se percebe um amor incondicional pela família e por aquele filho que nem sempre compreende em suas escolhas (por que Blake escolheu ser poeta e não médico, como pai, por exemplo).

É um filme sobre o amor, seus encontros e seus desencontros. E é também um filme que fala como o impacto da morte de um ente querido nos leva a uma viagem de volta ao passado, tanto aquele mais recente quanto o passado mais remoto. O que poderia soar como clichê num filme com essa temática é anulado diante de uma narrativa que opta por uma certa fusão entre o passado e o presente, quase uma simultaneidade entre os fatos. Daí que numa mesma cena teremos o olhar de Blake adulto, jovem e criança, numa superposição muito competente de tempo e de desdobramento de personagem. Destaque ainda para as atuações de Matthew Beard (Blake adolescente) e de Juliet Stevenson.


Fotografia e trilha sonora complementam a delicadeza desse filme que trata a morte com toda a emoção que o tema pede sem, no entanto,  se derramar no melodrama. O aspecto ao mesmo tempo reverente e corriqueiro  colocam o fato inexorável no lugar a que ele pertence, o cotidiano da vida.

O filme é tocante e a pergunta se refere à última vez em que você, espectador, viu o seu pai com toda a potencialidade de suas virtudes e defeitos por uma última vez.

É a pergunta que eu também faço ao leitor desse blog, se ele se sentir à vontade para responder, é claro:

Quando você viu o seu pai pela última vez?

Eu perdi o meu pai em outubro passado. E antes que ele morresse eu o vi ainda em duas ocasiões. A primeira, durante uma semana num hospital em Recife e a última vez, também pelo mesmo período de tempo, num hospital em Arcoverde. Mas a última vez em que o vi de verdade, a última vez em que ele ainda estava lá, foi quando fiquei com ele numa tarde pontuada de algumas conversas, algum silêncio,  e na qual ele me orientou em coisas práticas para o auxiliar. Ele havia saído quase que por milagre da UTI depois de uma sequência absurda de cirurgias.

Um mês depois, o pai que  vi de memória oscilante e para o qual eu disse um "eu te amo" de despedida, não era aquele pai de sempre, tão senhor de si e sempre tão forte. Era esse um pai já em caminho, já de viagem.

O pai que eu toquei no caixão, já não era, já não estava.

De tudo fica o pai que tento reconstruir com os fragmentos da memória desde então. O pai que permanece e que paradoxalmente fragmentário nem por isso é menos inteiro. Um pai quase que onipresente em tudo o que faço e às vezes me pego ouvindo na minha voz a tonalidade da voz dele.

Sinto saudades.
Mi.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Videoclubes


Eu adoro videolocadora...

Sou capaz de ficar horas lá dentro, sem me cansar. E, pior, vendo as escolhas alheias e palpitando, engatando papo, discutindo películas antigas. Devo ser chata. Daquelas que quando vê uma pessoa indecisa entre um filme e o outro já pega um terceiro e mete no meio e dá argumentos baseado nos últimos filmes que a pessoa viu e gostou.

Meu marido, que é discreto, tem pavor de mim... eu falo com muitos estranhos sem ser chamada na conversa !

Eu adoro videolocadora...

Não sei porque nunca trabalhei em nenhuma. Há 25 anos atrás era tudo VHS e tudo demorava mais para chegar ao nosso alcance. E, detalhe, não havia internet... por isso a gente gostava tanto de ficar na locadora discutindo sobre filmes, sobre atores, diretores, sobre as tantas impressões que tínhamos de tantas coisas... era uma delícia!

Depois veio o DVD e eu impliquei pacas... dizia que não ia abandonar o VHS, que bom mesmo era ver Fellini enroscando no cabeçote (pois é, algumas fitas antigas enrolavam e davam um trabalhão tirar tudo lá de dentro e pior, às vezes,  tínhamos que pagar pelo prejuízo, pois não havia salvação) !

Daí, chegou um dia que eu assisti o DVD e implicante e replicante que eu era, nem vi tanta diferença na tecnologia que deixava tudo brilhando, com tanta nitidez que era uma beleza... Briguenta que eu era, queria ver tudo em VHS, não aceitava ser tão moderna. Mas, o tal do menu com extras me fisgou... Caraca, o extra era outro filme, era outra visão, era a dissecação de tudo que ficava no ar e que a gente só descobria depois de muito bate papo com os amigos... Em alguns casos, os extras eram uma verdadeira aula de cinema, falando sobre efeitos, sobre caracterizações, sobre pesquisas, etc.

Bem, eu me rendi ao DVD (chorando, brigando comigo mesma) mas os extras... ah, não tinha mais jeito, os extras me conquistaram  e parei de comprar vhs.

Houve um tempo, que diziam que o mundo ia mudar. E, que as videolocadoras não sobreviveriam. Confesso, levantei bandeiras contra a rendição à tv a cabo. Não, eu gosto de ir na locadora, gosto de pegar o filme na mão, de virar a capa, de ler o que está ali, de ouvir o que as pessoas falam... de pegar um, pegar aquele, trocar por outro... não era possível a tv tirar tudo isto da gente!

Não me rendi, o mundo sobreviveu. E, se a tv a cabo trouxe um monte de filmes... não tirou , tenho certeza, nenhum cinemaníaco do cinema, não tirou os apaixonados pelas locadoras das ruas. Estamos lá, firmes e fortes, e as locadoras lucrando cada vez mais (porque alugar filme ficou caro, em alguns dias mais caro do que ir ao cinema) !

Tenho NET, vou ao cinema o tempo todo, passo na locadora um montão de vezes e a delícia continua a mesma.

Dizem que sou louca... mas, eu gosto de conhecer gente na locadora. Sempre acho pessoas interessantes, sempre tem a chance de encontrarmos alguém que gosta dos mesmos filmes  ou que gostam de outros diretores e acabam nos convecendo a experimentar algo novo.

Não tenho medo. Nem de arriscar nos filmes, nem de abrir a boca pra falar com gente que nunca vi.

E, por estas e outras, de vez em quando posto aqui alguém novo que descobri...

A Má foi assim. Entrei na locadora atordoada porque estava lendo De Verdade, do Sándor Màrai e pensando no livro e escolhendo um filme e acabamos nos esbarrando.

Mary e Max, eu adorei - ela também. 500 dias com ela, ela adorou, eu tenho em casa. Jane Austen... ah, querida Jane Austen, Mr Darcy é nosso amor! E foram tantas identificações ao acaso que dei o endereço aqui do Letreira pra ela bater na porta da minha casa... e de quebra, ela me deu o poster da Mary e Max pra eu botar na minha sala.

Ela não só apareceu por aqui, como criou um blog adorável, que tem tudo aquilo que eu gosto: música, literatura e cinema.

A Má é uma querida e segundo ela, é mais ou menos assim: "Maria W. aka Mary ou Maryann, 19 anos. Meio paulista, meio carioca. Tem a frescura de paulista, mas o time do coração é o Vasco da Gama. Futura estudante de Fotografia, que deixará de ser futura em março, apaixonada por cinema, música, literatura e artes em geral. Viciada em filmes da Keira Knightley, músicas do Libertines e Franz Ferdinand, e livros ingleses do século XIX. Aliás, a foto ali em cima é do filme da sua vida, Lost in Translation."

O AlbionDream está aberto para visitas.

Vai lá descobrir o que esta guria tem na cabeça e está botando na tela...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Cool


Este é o boletim eletrônico cooltural mais legal dos últimos tempos, adoro.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Leio entre travesseiros

Marc Chagall,  Aniversário
 
 
Meu maior sonho hoje é poder ler...
Não tenho tido tempo para minhas leituras...
Eu quero ficar rica pra ler o tempo todo...
o tempo inteiro...
Comendo, bebendo, cozinhando,
andando pela casa, roçando meu pé na tua perna
Se você me ama, me adote...
Eu ficarei lendo...
Posso ler pra você...
No banheiro, no chuveiro, no rodapé..
Leio entre travesseiros,
leio no seu peito, deitada sobre você..
Eu leio você!
Eu leio...
 
Texto que eu queria ter escrito, mas quem escreveu foi a minha querida aMÔra AMORim

Garfo sem dentes

ele sabia que não podia passar despercebido
mesmo assim continuava a usar o rosto escondido

(felipe godoy - aquarela)

domingo, 21 de novembro de 2010

O enforcado



Às vezes, por acaso, você se depara com um texto que poderia ser seu (de tão profundo reconhecimento de dor). A sensação primeira é a clássica "eu já passei por isto", a segunda é "não quero passar de novo". Mas, o pior de tudo, é no íntimo saber, que enquanto estivermos vivos, isto pode acontecer a qualquer momento (não importa o quão feliz estejamos neste instante). O amanhã nunca morre... 

Este aqui veio deste blog bacana:  BODY AND PROFANE ART e o título é certeiro: 

todas as cartas de amor são ridículas

Ao anjo torto
G.
Embora eu tenha uma vida humanamente miserável, pequena, um quase nada que se arrasta pelo tempo e espaço, eu espero que você tenha encontrado algum tipo de felicidade. 
Porque eu vou sempre continuar doendo aqui, em silêncio. Se eu continuo viva, é apenas pra passar meus dias dissecando nossos passos perdidos e que hoje rolam no ar, juntos talvez, já deixando transparecer parte do nosso pó futuro.
Você se lembra daquela chuva que você sentiu a natureza? Ela vem sempre morrer nos meus olhos.
Há mais de um ano você me deixou aqui, puta, bandida, timidamente calada, sentindo na garganta a corda da rejeição. Teoricamente, nossas cabeças já estavam rolando entre os pés imundos daqueles que deveriam nos amar. Você arrancou a corda, forjou uma queda e me deixou na forca sozinha, não me sobrou sequer um algoz.
E você me diz:
“– A mudança me fez grande, grande para perdoar. Meu silêncio já te torturou demais. Sempre serei o seu vazio. Nem meus pais eu amei tanto como amei você. Mas o amor virou cruz vadia carregada sem qualquer hipótese de redenção. Tive de ter coragem para rasgar-te as vestes e sepultá-las junto com o meu amor.”
Você se foi para sempre. E o que me resta é o ritual diário de te mandar um e-mail. Um e-mail que você não lê. Um dia você vai abandonar esse e-mail, mas eu manterei esse contato, porque essa é a corda que me restou. Se no dia do segundo abandono sua conta eletrônica for desativada e o e-mail retornar, entenderei como uma resposta sua, entenderei como um ‘eu te amo também’ às avessas, já sem amor, já sem corpo, etéreo e virtual.
H.


Detalhe: 
Depois da publicação do e-mail  recebi a resposta: "Escreve um livro em prosa poética sobre sua vida e me deixa em paz."

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Gostosuras



A Dani Zaraya, minha amiga, era uma advogada daquele tipão: séria, responsável e super competente. Os estagiários sofriam na mão dela, porque com a Doutora, não tinha moleza não.

O tempo passou e essa moça resolveu ser bem feliz do jeito dela. E, foi com imensa doçura e com muitas gostosuras que ela criou um nova profissional, uma nova empresa e está botando pra quebrar.

Mas, não se engane com os olhos azuis e radiantes dela não. Mesmo você achando que não dá, ela faz acontecer. E, ela vai te dar um bolo, vai te dar os doces e vai fazer a tua festa!

Pra comemorar o sucesso da empreitada, que nasceu há um ano, ela inventou de nos presentear com algumas travessuras...

Quer também ? Passa lá !

sábado, 23 de outubro de 2010

Simples, assim.

obsessão faz parte
auto-retrato também é arte.


(texto e aquarela: felipe godoy)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Blog bom não tem preço

Dica boa do Robinho

"Leiloe sua dignidade" é uma compilação de músicas que faz um homem pensar a que veio para a terra. Perfeita para uma terça-feira cinzenta ou uma sexta-feira nebulosa. Fica bem acompanhada com cigarros Benson & Hedges e soda limonada, ou Doritos com molho mexicano.


Tracklist:

1. Alpha - Elvis (3:23)
2. Richard Swift - Losing Sleep (4:30)
3. Belle and Sebastian - Don't Leave the Light on Baby (4:41)
4. Jon Brion - Ruin My Day (3:50)
5. Phantom Planet - Our House (2:58)
6. The Elected - I'll Be Your Man (4:22)
7. St. Vincent - What me Worry? (3:56)
8. Ed Harcourt - Until Tomorrow Then (3:56)
9. M. Ward - Eyes on the Prize (2:37)
10. Secos & Molhados - Fala (3:18)
11. Vashti Bunyan - I'd Like to Walk Around in Your Mind (2:15)
12. Nina Simone - Good Bait (5:29)