quarta-feira, 25 de junho de 2008

Moço meu

quinta em São Paulo, sem chuva e com Djavan, milagreiro, bicho-solto, ao vivo-
post 25/06/2008

Djavan, é embarcação onírica em oceano límpido oriundo de mãe lavadeira de ilusões. É uma voz e um violão, é 1976. É pára-raio, magia e ventos do norte. É flor-de-lis e maçã-do-rosto. Na boca do beco, quantas voltas dá (n)o meu mundo. No embola bola traz Maria das Mercedes (quase Macabéa) . É fato consumado, e que Deus ajude, muito obrigado. Um dia frio.

Encontrei Djavan numa esquina de Hanói. Cara de índio, foi a minha ao ouvir estória de cantador. Mas, minha mãe (que não é) Nereci, nem veio de Alagoas, me ensinou que no serrado, samba dobrado é dupla traição. Em 1978, estava meu álibi.
É bonito este moço, cheio de alumbramento e de sim e não. Moça que sou, quase a Rosa, aquele um, feito lambada de serpente na triste baía de Guanabara, tomou chá de cidreira por causa de um sururu de capote. Tem boi na linha com ele não, em trem de ferro faz jejum limão. Dor e prata é passado, meu bem querer ele sabe que é. E 1980 não estava nem começando...
Seduzir é total abandono. Em 1981, (n)a ilha, faltando um pedaço em puro êxtase luanda. Morena de endoidecer à Pedro Brasil se jogral. E batizados foram africamente Nvula Ieza Kia/Humbiumbi.
Luz, bastava. Mas de sina se faz samurai. E de banho de rio, se faz esfinge. De açaí, minha irmã que não vingou. De capim, 1982. E de pétala em pétala, nobreza. Ave!
De lilás é feito as esquinas de 1984. Em trânsito infinito, transe de Ìris, canto da lira à liberdade. Obi, "Obá que nem zen, czar" ... pura miragem.
Em 1986, muito mais quase de manhã, ao meu lado. Do beiral, um segredo, romance em asa, amor topázio. A lei é clara, Nkosi Sikelel ’I-Afrika. So Bashiya Ba Hlala Ekhaya ...e à luz do dia rompeu.
Soweto me leve. Que dou-não-dou é doidice minha. No meu navio, carnaval no rio. Há de florir, em mim, um bouquet de maçã. Não me importa 87 que passou, eu apenas sabia... é Azul mas não é mar.
Oceano desaguou em mim. E mil vezes, como avião, como cigano, como curumim, como corisco, a vida real é mal de mim. Você bem sabe, o calendário marcava 1989. "Sempre loving you, só porque we were so happy".
Boa Noite. A rota do indivíduo é feito de coisa de acender. Se... a linha do equador tem cores de outono, andaluz, alívio, no meu baile tem violeiros, dorme 1992.
Novena é feita de violão, de 1994 e de limão, lobisomem, avô e água de lua. Aliás, nas ruas, sete coqueiros avisto, mas quero mar à vista, em renunciação (alma de ateu).
Em 1996 pergunto que foi my love ? Irmã de neon, tenha calma que a cordilheira é correnteza, Malásia. Não deu, deixa o sol sair. Sorri (smile) , seca , coração leviano.. nem um dia "espero com a força do pensamento,recriar a luz que me trará você"...
Ah, moço tão raro, bicho solto, meu bem querer. No retrato da vida, amar é tudo, atitude Be Fair. Você é o pássaro, a carta passou. Em 1998, eu te devoro.
Djavan é jazz. Em 1999, ao vivo é duplo. De novo, azul... e acelerou.
Milagreiro "meu". Brilho da noite, além do mar. Tem sílaba, farinha, Om. Na ladeirinha, uma infinitude de lugar comum. Ao cair em si, "na dor, ora, faça-me o favor!" . É tempo de novo milênio, 2001 aluou.
Em 2004, mundo vasto é de vaidade. Se acontecer, flor do medo, sentimento verdadeiro, amor algum. Um dia azul pra Bailarina, Tainá-flor, estátua de sal. De canto ou vozeria de barqueiro à discussão apaixonada, celeuma não ouço. Apenas canto, dorme Sofia, dorme... na, na, na, na, na
Na pista, etc... 2005. Tanta saudade, azul, miragem, asa, sina, capim, acelerou, fato consumado, se... remix download, reloaded.
2007 Matizes. Meã-culpa. Azedo e amargo. Por uma vida em paz, delírio dos mortais, adorava me ver como seu. Joaninha era. Mas imposto, desandou. Louça-fina, pedra, fera... "Tudo o que for, Preciso! Juízo"
É quinta feira, é São Paulo, são muitos livros espalhados. É 25/06/2008 no meu calendário. Oceano em pura voz. Puro deleite, puro delírio. Tudo claro, em letra límpida. Pétala foi feita para alguém, para mim que não, mas é minha, há tempos – imemoriais. No retrato do artista, ainda jovem, o flash(b(l)ack) imediato. Djavan não é só barco, é também, a outra margem... do meu rio.

Nem um dia


Um bom lugar prá ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo
Um dia triste
Toda fragilidade incide
E o pensamento lá em você
E tudo me divide (bis)

Longe da felicidade e todas as suas luzes
Te desejo como ao ar
Mais que tudo
És manhã na natureza das flores

Mesmo por toda riqueza dos sheiks árabes
Não te esquecerei um dia
Nem um dia
Espero com a força do pensamento
Recriar a luz que me trará você

E tudo nascerá mais belo
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Um dia desses...

Show Maré-Adriana Calcanhoto-Citibank Hall 06/2008

Uma concha enorme, do lado esquerdo do palco, sem som dentro dela. Adriana vermelha como coral em maré cheia. Cavalos marinhos povoando o céu, mas não voando pelo mar adentro, nem cavalgando pelo fundo azul. As sereias imaginárias dançando notas de calypso, Waly Salomão em cada canto. Concreta esta moça, de letras bem feitas e olhos azuis. Distante de todos, e ao mesmo tempo declamando frases que parecem nos vestir perfeitamente.
Impossível não querer entrelaçar dedos e sussurrar segredos diante de cada nova canção. Sensação daquelas de dejavú. Tudo parece ser minimamente planejado. Calcanhoto não tem muitos rompantes dentro dela. Toda sua fúria é dita comedidamente, pausamente e com meios-sorrisos. Não é fácil encantar assim, e sendo assim ela encanta. Sereia das boas, acredito eu.
Ao sair da coxia, seu movimento não é de mar bravio. Serena e malemolente ela chega com seu olhar de viés. Sauda o público, a casa cheia : "Boa Noite São Paulo. Muito obrigada e boa noite... boa noite... é um prazer estar aqui. Vocês devem achar que eu digo isto em todos os lugares onde vou, e digo mesmo, só que aqui .... é de verdade". Luzes, palmas, gritos, gestos mínimos pra início imediato.
O néon corta o palco de um lado ao outro, verde relâmpago, lua cheia. E a água insiste em ficar lá, parada. E, os cavalos marinhos, permanecem no céu, decalcados. Em movimentos lentos, quase nada, poesia em ré-maior. Cada fim de canção, o corpo projetado pra frente, a canção entre dentes, efeitos marinhos em roupa ondulante.
O choro da cuíca, o violoncelo entre as pernas, um Verão in rock, um samba pra Martnália. O ar quase blasé, Esquadros misturado a Três... Assim Sem Você e assim Sem Saída... um show inteiro de canções novas, canções conhecidas.
Essa moça tem um jeito de comover que assusta. Na boca dela as palavras parecem mais frias, quase cortantes. De fino humor, imagino-a às vezes, presa num poema dos Anjos (do Augusto), aquele que escreveu A Louca "Quando ela passa: - a veste desgrenhada, O cabelo revolto em desalinho, No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Moça, tão moça e já desventurada; Da desdita ferida pelo espinho, Vai morta em vida assim pelo caminho, No sudário de mágoa sepultada. Eu sei a sua história. - Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso - O segredo d’um peito torturado - E hoje, para guardar a mágoa oculta, Canta, soluça - coração saudoso, Chora, gargalha, a desgraçada estulta."
Não sei bem o que é, que nela me fascina e me adormenta. Tenho a sensação que dentro dela há algo triste, pois não é possível tal criação sendo feliz em tempo integral. As melodias são quase sempre doridas e as perdas inimagináveis. Mesmo quando ela tenta comer Caetano, a antropofagia não mistifica o prazer. É um tanto quanto, de Teu Nome Mais Secreto... "Cavo e extraio estrelas nuas de tuas constelações cruas"...
E, de dentro dela, parece brotar esta imensidão de imagens, estes fragmentos de memórias, estas cores de Frida que claram cores. Em sua maré, traz Continentino com a escaleta ao fundo, e Medina cálido diante de Lancellotti e de Costa em sons profundos.
Há instantes, que dá uma vontade danada de chorar. Sabe-se lá porque... canto de sereia é assim, chama a gente e não espera para partir. De letra em letra, vamos mapeando nossos sentimentos e nos apropriando de notas e de canções, envoltos pelo mesmo mar, pela mesma areia.
Finda o show com Vambora e a cantarolando baixinho "na cinza das horas... dentro da noite veloz" tenho a sensação de ouvir um poema antigo (de Drummond) que termina assim "Eu não devia te dizer , mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo."
Linda e delicada, reverencia o público como se Pequeno Príncipe fosse. E, em minhas lembranças, agora mais do que antes ela é a rosa, não o Príncipe que viaja por espaços siderais, mas a pequena rosa, presa na redoma de vidro e ainda assim capaz de tanta poesia dentro dela.
"Meio mulher, meio peixe, entre o fundo e a beira, e que detém o canto, no sentido de canto primeiro, do nascimento do canto, anterior à palavra - Adriana Calcanhoto"


domingo, 1 de junho de 2008

Este mês na Zunái

ilustrações minhas para contos diversos (http://www.revistazunai.com.br/contos/index.htm).

Visitem:
ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES EDIÇÃO XV, MAIO/2008

-Toda língua é poesia, entrevista com a poeta canadense Erin Moure
-Berlim, 1936; Pequim, 2008 (editorial)
-Quando o olho é uma câmera e a mente edita imagens: poemas, textos, sons e imagens de cinepoesia
-A poética sincrônica de Haroldo de Campos, ensaio de Cilene Trindade Nascimento
-O vôo suspenso do tempo (sobre Walter Benjamin), ensaio de Maria João Cantinho
-Rainer Maria Rilke e August Stramm traduzidos por Augusto de Campos
-Chiyo Ni traduzida por Alice Ruiz
-César Vallejo em videotradução e musicotradução
-Carta de Lisboa, por Maria Alexandre Dáskalos
-Contos de João Filho, Márcia Bechara, Greta Benitez, Silvana Guimarães, Bruna Piantino, ilustrados por Sônia Alves Dias.
-Poemas de Jean-Paul Michel (França), Odete Costa Semedo (Guiné-Bissau), Alan Mills (Guatemala), Sérgio Rios (México), Joana Corona (Brasil) e muitos outros.

Zunái, Revista de Poesia e Debates.
(
www.revistazunai.com.br)

sábado, 31 de maio de 2008

Les jours tristes

Era uma vez muitos e longos meses, uma mulher de Balzac, uma caixa de costura, uma Nina Bailarina, muitas linhas cor-de-rosa, ingleses na TV, uma canção francesa, uma Sopa de Príncipe.

Escarlatina

colagem by sônia alves dias

a cabeça oca, vermelha touca, cobra coral. lambo-lhe a boca, os dedos do pé, os cabelos do corpo. labaredas de fogo, fogo de inverno , fogo de mercúrio. Vênus desceu do cosmo, Vênus sou eu. teia de aranha, caranguejo anda de lado e desanda. na Bahia tem Café e em Sampa tem Coca . corro atrás de quem está na frente e quem está atrás de mim corre também. cobra corre e escorre, lânguida e morna, boca vermelha língua cintilante olhos piscantes veneno fatal, sem repouso escoa e no asfalto preto incendeia V E R M E L H A .

coletânea pessoal, Entrenoites, Sônia Alves Dias.

Noite Estrelada

bico fino sobre canson by Sônia Alves Dias

Vá
Vá´gora
Vá´mbora
Ah!
Va’mos juntos,
que Van Gogh já foi e,
estamos atrasados !

coletânea pessoal, Entrenoites, Sônia Alves Dias.


Se...

pincél sobre cortiça by Sônia Alves Dias
e se os olhos dela cantassem uma canção que soasse através de um piano que a levasse ao céu, ou pelos caminhos do inferno ? e se ela quisesse ser um Todo e estivesse submersa ? e se o seu corpo fosse o alicerce do nada ? e se ela quisesse beber um vinho amargo, e sua boca não alcançasse nem um copo d’água para matar a sede ?
e se o seu corpo mutante ganhasse asas e fosse um animal paleontológico que tivesse garras e estivesse preso por fios invisíveis , no meio de um cabelo desgrenhado e como objeto voador não identificado, sem forças cósmicas , caísse num rio ?
e se o rio fosse de Janeiro e no Pão de Açúcar brotasse flores e se os seus cabelos fossem crinas douradas que descessem como cascatas d’águas numa corredeira sem fim ?
e se o fruto que saísse do seu ventre estivesse morto , e há tempos congelado em seu coração amputado, e pendurado estivesse como num matadouro – exposto – com bichos a lhe devorar a alma ?
e se ela navegasse sem rumo e seus braços fossem remos fortes, feitos da melhor madeira – peroba vermelha ? e se ela deixasse que a água a tomasse inteira e ficasse lívida , lírica no grande cálice tombado sagrado ? e se não houvessem escadas que lhe conduzissem as Torres da Terra do Tombo, e se as portas não tivessem chaves, e se Ícaro irado reivindicasse suas asas e diante do sol molhado de larvas incandescentes sentisse prazer em derreter-lhe com todas as penas ?
e se seus cabelos fossem cordas violas, e se o olho do mundo zombasse dela ? e se ela não fosse mais nada ... mais barco mais rio mais ar mais vinho...
e se o copo quebrasse e se o corpo entornasse e se ela no chão se inundasse inteira ?
coletânea pessoal, Entrenoites, Sônia Alves Dias.

sábado, 10 de maio de 2008

Eventail de Mademoiselle Mallarmé

retrato de agenda antiga (guarda-chuva, dândi, king kong e sopra vento)


dança mal, mas bem lhe quer. em busca de Les fleurs , pós-blecaute-baudelaire, lança os dados com Mallarmé. é canção de fim de século na Boite XIX. vestida de branco com cabelos esvoaçantes, grafa o som em movimentos imaginários...
[ On the air ]
pisca. o letreiro luminoso. os olhos mornos. as luzes, nos outros. os olhos, do outro. a luz, em sua boca. o peito, acelerado. o letreiro, em estado lento. o leite, dos olhos. a pele, deleite. os braços soltos. o vento pouco. pouco, vendo. veneno, da noite. pisca. do outro lado, Mallarmé. aparição.
psicologia da composição. claro, enigma. na paulicéia, desvairada. sem joão, se agarra a pedra, do sono.

é fim de noite, seus seguidores já estão dormindo e ela imagina porque seus olhos continuam em branco... apenas piscando...

...piscante.

sábado, 3 de maio de 2008

Bonequinha de Luxo

Audrey Hepburn no filme Breakfast at Tiffany's, 1961
Personagem inesquecível e imperdível. Audrey está linda e leve no papel de uma "garota de programa" chamada Holly Golightly que apesar de querer agarrar um milionário, não tem a malícia explícita que vemos nos filmes de hoje. Nela, tudo beira à inocência e é tão delicada em gestos, falas e olhares que cativa no primeiro instante. O filme é muito bom e pode ser revisitado sempre, sem medo. Não saia da sala, sem ver esta linda moça em NY tomando café da manhã em frente a Tiffany´s e na chuva de olhos fechados em abraço apertado. Linda também é ambientação de uma NY antiga e o figurino que veste Audrey sempre fantasticamente bem.
Cena imperdível: Moon River na voz suave e doce de Audrey, sentada na janela da sacada, sendo observada pelo escritor, vizinho, do andar superior.

domingo, 27 de abril de 2008

Dois Palitos e um pé de trevo com 4 folhas

Dois Palitos ( conténdo 5o microcontos ) de Samir Mesquita ^


Dois Palitos, pode ser rápido ou lento. O consumo é imediato e a chama pode incendiar a caixinha inteira. Pode ficar assim, caixa exposta em qualquer canto da casa, em destaque entre livros ou mesmo próxima à um cinzeiro distraído.
Em qualquer lugar deixada será percebida. Todo mundo toca em caixa de palito, como se fosse caixa de música, como se fosse um samba a dois.
A primeira impressão é um utilitário qualquer: acendedor de chama (de velas que incandescem paixão, de fogo brejeiro de forno e fogão).
A segunda impressão é de surpresa arteira: ora pois, sim senhor, não é que pintaram fósforos coloridos dentro de uma caixinha comum ?
Bem, daí é pra frente é um conjunto de coisas, tudo junto ao mesmo instante ao mesmo tempo: riso, espanto, constatação, consideração pelo contar alheio.
Sempre digo que tudo já foi escrito, em maior ou menor grau a literatura (assim como a moda, as artes e uma infinidade de áreas) abrange muito mais do que podemos conhecer em vida. Mas, cabe a nós, reinventarmos a roda sempre.
Beijo de Cinema  
"As luzes se apagam.
Os olhos se fecham.
O filme começa."

Mais verdadeiro impossível, e inesquecivelmente re-inventado e colocado entre outras 5O mini-narrações.
Vale a pena ler, mostrar e deixar em casa como obra de arte. É um mimo, e o custo é mínimo. Recomendo riscar um palito de cada vez, para perceber a mágica de cada luz.
p.s. Marcelino Freire, como bom beato, abençoa e apadrinha a obra. Quem não comprar, não ler ou não presentear vai queimar no mármore do inferno.

ah: e o detalhe: o trevo de 4 folhas é apenas para garantir a boa sorte de Samir Mesquita com suas próximas pílulas homeopáticas!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Ciranda de Bailarina

Acrílica s/tela  -  Sônia A Dias
ISADORÁVEL

Dança a vida. Liberta de meias e sapatilhas. Dança solo. Dança em fundo de céu azul, pequenas nuvens. Improvisa. Todo gestual corporal é arte pura. Os movimentos de Isadora eram inspirados na natureza. Toda ela era mar, era vento e tempestade. Duncan bailarina. Caixa de música antiga, moderna.

No olhar cetíneo, aveludado

A Pecadora by Sônia A Dias

Pecadora

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,
A chama cruel que arrasta os corações,
Os seios rijos eram dois brasões
Onde fulgia o simbolo do Pecado.
Bela, divina, o porte emoldurado
No mármore sublime dos contornos,
Os seios brancos, palpitantes, mornos,
Dançavam-lhe no colo perfumado.
No entanto, esta mulher de grã beleza,
Moldada pela mão da Natureza,
Tornou-se a pecadora vil. Do fado,
Do destino fatal, presa, morria
Uma noite entre as vascas da agonia
Tendo no corpo o verme do pecado!

Augusto dos Anjos

Auto Retrato

Auto Retrato by Sônia A Dias, 1998
A fome do primeiro grito
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra.
Há tanto tempo espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu.
Pastor e nauta
Olha-me de novo.
Com menos altivez e mais atento.
Hilda Hilst

Olhos fitos em rútila quimera

A Recatada by Sônia A Dias

Eu

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me -Pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca

Imagens da Memória

La Danaide, Rodin.


"CAMA DE CASAL, EXIJO NAS PORTARIAS DOS HOTÉIS,
SOU CASADO COM COMUNHÃO DE CORPOS.
NÃO ABRO MÃO DO CORPO BEM-AMADO NO TRÂNSITO DA NOITE,
CALOR, DESVELO, SEGURANÇA."
Jorge Amado



Acordo

( . . . )

Desperto
(de olhos bem fechados)
Aberta
(de coração pidonho)
Sedenta
(de boca dormida)


Re(flex)o
De todos os sentidos
(sexo)
(re-action
-coupling)

Na luz refletida; revérbero.

Adormentada, contorno
(e)novelo(-me)

A noite, adormece
(en)rodeia(-me)

O tempo ...

Memoriza-{ Me
Em } morins
Sônia Alves Dias-08/2005

Whisky Uruguaio


Sobre Whisky



Tim-Tim. Põe o dedo enluvado no copo e mexe o cowboy. O filme não é bom não. Recebeu ótimas críticas, mas achei a fotografia duvidosa. Tem pouco ruídos, tem pouco sentido e pouco sentimento. Acredito que o autor/diretor poderia ter ido além. Foi raso, rasante, nem mergulhou.


Recomendo a capa.
Muito boa, adorei, recorto pra mim se achar nos jornais ou revistas. Ficou de uma beleza rara. Gostei das cores, das caras e das letras. Gostei de tudo.


A atriz, vestida de Marta.
É boa. Poderia ser melhor aproveitada. Pelo pouco que foi, foi bastante. Segurou o filme todo. Fez ponta de primeira. Saiu bem no retrato.


O ator, dono de Jacobo.
É viúvo. Solitário. Sujo. Sem muitas palavras, sem muito nada. No fundo nem foi tão ruim. Pensando melhor, não falou porque esta era a fala. Ausência delas, para bem dizer a verdade.


O ator-irmão, metido a cantor.
Eufórico. Viajado. Pai de filhas no retrato. Desligado do irmão, mas ligado no mundo ao redor de si. Tinha pinta mesmo de irmão-umbigo. Canteiro.

O filme retrata a ausência da fala, a decadência e a solidão. Despindo-se de paixões, propõe-se a ficar bom.

O triângulo:
ficou no ar,
de bermudas, de apostas escuras, de desdizeres,
numa película limbática e erma.

O fim.
É pra ti ver. Depois me dizer:
WHISKY!

Aí vai meu coração

As cartas de Tarsila do Amaral e Anna Maria Martins para Luis Martins

Foi um triângulo. A obra da Tarsila escrita era acanhada. De poucas palavras deixadas, vê-se cores carregadas. Na desigualdade da vida, naquele tempos (meados de 30) heranças e paixões eram casos sérios e os casos amorosos não podiam, nem deveriam, ser revelados.

Tudo foi trancado à 7 chaves. Mas, a importância de Tarsila na vida de Luis Martins não foi mero acaso. Por muitos anos, mantiveram segredo (ou quase, tendo em vista que muitos sabiam desta gangorra solitária que balançava o coração tarsiliano). Até que pós-morte (como sempre, com o que se guarda por não se ter coragem de rasgar coisas do coração selvagem) a filha de Luis e Anna Maria descobriu que o pai mantivera por 18 anos um caso com uma outra mulher. Sim, era ela, a Tarsila das tantas artes: "Abaporu", 1928; "O Lago", 1928; "O Ovo" ou "Urutu", 1928; "A Lua",1928; "Cartão Postal", 1929 e "Antropofagia", 1929.

Aí vai meu coração, não é um livro de fofocas. Ao entrar no universo alheio, de paixões e dores transcritas em cartas antigas, sente-se um aperto no peito por cada página que se vira. Dói um pouco, porque no fundo, sempre imagina-se finais felizes. Descobrimos porém, que a vida não é tão colorida quanto merecia ser e a máxima modernista é mais verdadeira que nunca "só a antropofagia nos une" desde sempre, para sempre.

Um trecho do livro :
“... Eu também tenho momentos de desespero e quero também desabafar para sentir-me mais aliviada, como aconteceu com você. Não quero que você torne a falar em morrer. Essa idéia me é intolerável. Antes venha a morte para mim, o que seria uma solução menos má. Vou deixar esta carta para amanhã. Estou sofrendo demais e, como não posso deixar de ser sincera, poderia concorrer para aumentar sua angústia. As palavras escritas me doeram muito mais do que as faladas: ‘Amo, etc....’ nem quero repetir suas palavras: elas são punhais que se enterram nas feridas do meu coração. Ah! meu querido Luís, mas por que estou eu dizendo estas coisas? Perdoe-me se estou sentindo necessidade premente de expansão. E eu que não quero ser estorvo na sua vida...” Carta de Tarsila do Amaral para Luís Martins datada de 21 de janeiro de 1952, época da separação deles.
( acreditem ou não, mas eu chorei com esta Tarsila, trancada com estas despedidas em algumas noites vazias )

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Retrato de uma tarde chuvosa


Rocky Balboa, olho de tigre constante. Também de tigre, os pés pequenos. E pra rugir bem alto, The Godfather, porque Brando é eterno. Vela azul, pra calmaria e fuscão preto no cinzeiro imaginário... toca telefone, toca.

Tostare com Lavoura à tarde

Une cafétéria est un mode de restauration où il y a peu ou pas de service de table

Não bebo café. Não fumo cigarro. Sou careta e gosto de MPB, de eventos culturais, de livros antigos (muito antigos, embolarados até, pois parecem mais vivos). E, adoro bistrôs, cafeterias, cantinhos de calçadas, lugares "inhos". Gosto também de editorais de moda (sou capaz de folhear por horas e horas revistas de alta costura como se fosse uma bela obra de arte, e quem nunca parou pra ver sem olhos de descaso, deveria... um belo editoral traz obras belíssimas e tecidos inimagináveis, além de performances notáveis). Mas, Tostare ! Esta é uma cafeteria que tem no meu bairro. Descobri que é uma franquia. Poderia ser mais IN em tudo, mas se você quiser tomar apenas um bom café com leite cremoso numa xícara grande e ver uns livros de arte, enquanto a tarde passa lentamente... prove. É bom e barato.

Enquanto isto, em minha tarde ao léu releio Raduan Nassar, Lavoura Arcaica: “Eu disse aos berros, me agitando, e vendo em meu irmão surpreso, susto, medo e muito branco na sua cara, eu, que podia ainda gritar ‘tape os ouvidos, enfie os dedos no buraco’, eu, deslocado de um canto para o outro, eu de repente me pus de joelhos, me sentando sobre os calcanhares, e vendo sua mão trêmula, ele próprio decidindo encher de novo nossos copos, eu, tomado de dubiedades, já não sabia se devia esmurrá-lo no rosto ou beijá-lo nas faces;” (p. 47)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Jorge da Capadócia

Hoje é dia do São Jorge, do meu Pai.

Quando eu conheci meu Pai, ao nascer, ele já era protegido de São Jorge. Tinha na carteira uma oração antiga, escrita à mão num papel já puído onde dizia que armas de fogo não o alcançariam e com as vestes de São Jorge ele andaria.

Era uma oração bonita que nos fazia acreditar que proteção maior não havia, e que a vida do meu Pai nas mãos de São Jorge sempre estaria.

Estávamos certos. Na proteção de São Jorge meu Pai sempre viveu, e no dia da sua morte, a lua do céu desceu. Que não creiam os céticos, nem eu pediria, se eu não tivesse visto, nem mesmo eu acreditaria. Mas, cantando e chorando naquela madrugada fria , Jorge da Capadócia, parecia nossa salve rainha. Pude ver um dragão no céu, e tenho certeza que na lua meu pai estava, sentado no cavalo protegido por São Jorge e nos acenando que em paz ficaria.

A oração que meu Pai carregava e que nos deixou, dizia assim:

"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós.

Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. São Jorge Rogai por Nós. "