Enxergar mais longe
-
Numa torre mágica, vivia um menino.
Lá do alto, ele podia avistar o mundo inteiro:
os bichos e seus sonhos mais dourados;
as lágrimas azuis de quem atra...
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Seu olhar
O Seu Olhar
Composição: Paulo Tatit / Arnaldo Antunes
O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
O seu olhar seu olhar melhora
Melhora o meu
Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu
O seu olhar seu olhar melhora
Melhora o meu
O seu olhar agora
O seu olhar nasceu
O seu olhar me olha
O seu olhar é seu
O seu olhar seu olhar melhora
Melhora o meu
O Gigante partiu para as terras do sem fim.
na lendária banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção
Eu me intimidava com o Gigante. Também, quem é que não se sentia assim ao lado dele ? Mas, bastava ele sorrir pra desarmar a gente. Parecia até que a alma voava, viajava naquelas mãos acrobáticas dele. Quando perto dele estive e, foram algumas raras vezes, minha voz (que já não é muita) parecia soar menor... era tão querido!
Ele, apesar de gigante, tinha uma voz mansa como leão em zôo cativo. Eu, tinha a sensação que ele só esperava subir ao palco pra rugir e derrubar tudo. Mas, a serenidade dele era incrível... e mesmo com a voz mansa, com os movimentos cadenciados e parecendo tocar pratos no ar... ele quebrava tudo.
Gigante Brazil fará falta. Figura lendária, tomava o show inteiro e, se Itamar não fosse tão xamã e irmão do negro beleza era bem capaz de ter perdido a vez e ter ficado em segundo plano. Mas, no palco, não havia segundo plano. Havia sempre primeiro. Primeiro Itamar, primeiro Negão. Gigantes, os dois.
Os palcos ficarão mais pobres, talvez poucos sentirão sua falta. Mas, os que sentirão saberão, daqueles dois moços luzentes: guerreiros, antigos.
domingo, 28 de setembro de 2008
Lábia
Omar Salomão, Vulgo Qinho e os Caras, e é claro, Waly Salomão.
Falar sobre um show não é mais tão fácil assim. Não é só declarar paixão pelo artista, ficar embevecida de estar lá, não é só sentir o peito apertado e deixar o coração pular, não é só estar ali por ali estar. Então as luzes se acendem...e,
... que importa se no Sesc coisas estranhas acontecem... e microfones ficam mudos, e violões de aço se recusem a tocar, que importa se uma banda nova fica mais tempo no palco que o verdadeiro dono da festa, que importa tudo isto se quando as luzes se apagam... está lá, tudo mais vivo que qualquer instante passado...e, ...Adriana continua deixando portas abertas, e Jards aparece sempre vestido como super man ou general, e novas pérolas se apresentam, e novos moços (Vulgo Qinho e os Caras) fazem festa no palco, e Omar Salomão está lá contando sobre Wally no intervalo dos comerciais...e, ...tudo isto importa como sempre. Como sempre me importa, ver gente nova, novas gentes. Como me importa muito, estar em contato com os antigos e com as músicas e com os versos e com os meus retratos: de quem sou, de quem são, de como somos.
Foi um show muito bom. E, Jards permaneceu até o final, embora muita gente tenha desistido por achar que ele tinha partido. E, no fim, estávamos todos ali, batendo palmas e com um leve sorriso de ter visto algo pra s(t)er sentido... e guardado.
Me segura qu’eu vou dar um troço
Despedida: palmas pra Wally (pra que te quero).
Remix Século XX
Armar um tabuleiro de palavras-souvenirs. Apanhe e leve algumas palavras como souvenirs.Faça você mesmo seu micro tabuleiro enquanto jogo lingüístico.Babilaque, pop, chinfra, tropicália, parangolé, beatnick, vietcong,bolchevique, technicolor, biquini, pagode, axé, mambo, rádio,cibernética; Celular, automóvel, buceta, favela, lisérgico, maconha, ninfeta, megafone, microfone, clone, sonar, sputinik, dada; Sagarana, estéreo, subdesenvolvimento, existencialismo, fórmica, arroba,antiquarios, motossera, mega sena; Cubofuturismo, biopirataria, dodecafônico, polifônico,Naviloca, polivox, polivox, polivox, polivox...
Microcontos Twitter

Você participou deste evento ? Eu sim, mas os resultados ainda não sairam... acompanhe on-line... http://140.zip.net/
1º Concurso Brasileiro de Microcontos do Twitter. Quem ganhar leva para casa 4 livros da Coleção Bactéria. Para participar, bastava publicar um microconto no Twitter até o dia 20 de setembro.
Apoio: Sebo do Bactéria
Troca da Primavera
Estou participando da Troca da Primavera que a Micheliny Verunsck criou. Já postei sobre o assunto antes, e agora é hora de falar um pouco sobre a minha amiga que devo presentear: Cibele Barzaghi.
Em primeiro lugar, o blog dela é um doce (http://ceudebrigadeiros.blogspot.com/) e ela é uma artesã de mão cheia. É cheia de mimos e de delicadezas, o que torna uma delícia passear por ali... Eu acreditava que ela era uma moça mais velha. Mas, depois de algumas fotos e um tanto de palavras, descobri que ela é uma moça muito bonita, muito nova e acima de tudo... uma moça de fina estampa! Segundo as palavras dela, ela caminha estampada: de flores, de listras, de cores, e até de onça e de girafa! Eu imagino que encontrar uma moça assim distraída deve ser coisa de filme, e eu me sentiria muito importante em tropeçar nas estampas dela. Sei que ela é branquinha e se tinge de rosas e lilázes, também de azuis e amarelos, tudo sempre muito vivo e brilhante, porque moça fina bem tratada merece ter o sol banhando todo o seu corpo, ô se merece! Agora, delícia mesmo, foram as unhas... até me lembrou um pouco de Olhinhos de Gato, da Cecília Meirelles, embora as cores fantásticas esteja mais para a sinuosa e miúda Greta Benitez... ficou curiosa ? Pois bem, te digo... já imaginou uma Madama destas, moça fina e listrada, com o sol a lhe banhar a face e com os cabelos ao vento ondulados... com vermelhos cerejas, vermelhos rosados e vermelhos azulados a lhe colorir os dedos ?
Pasmem, amei! Claro, porque eu tenho dedos mínimos (o maior não ultrapassa 6 centímetros), o que não me permite nunca usar cerejas ou ameixas e fantasiar unhas de gata . Meus dedinhos ficam sempre nos pálidos suspiros e nas areias...
Mas, de tudo que vi e ouvi (e sou uma boa vivonária, aquela que tudo vê e que tudo ouve com os sentidos bem abertos), sei que esta moça primaveril (não podia ser uma amiga melhor!) é romântica e doce, além de psicóloga de estrelas. E, isto me lembra do querido e antigo Bilac ("Ora pois, direi, ouvir estrelas! Tresloucado seria..."). Sei que ela borda com adultos e crianças, e fala baixinho (como eu, talvez também , para não acordar passarinhos!). É corajosa como a VIOLA de Shakespeare e tem tanto teatro dela, que talvez ela nem imagine...
Sei também, claro que sei, que ela não gosta de brigas. E, da Argentina voltou cheia de pontes e contos pra tecer e contar uma história inteira.
Mas, ai que doce vida... as moças mais bonitas e prendadas ainda guardam na fila pra subir no cavalo do Príncipe Encantado. Eu se fosse moço de boa família, largava o direito, esquecia da medicina e deixava esta Dona Estampa Bem Docinha, cuidar da minha felicidade, pra sempre.
A primavera está no ar, e a minha Viola já está pronta para partir...
sábado, 27 de setembro de 2008
Blog do Dia
http://garfosemdentes.blogspot.com/A Família Godoy (primos, de Minas e SP) publicam juntos histórias/textos/contos.
São novos, novíssimos e prometem ...
Soares Feitosa
Não é aqui não.
Alguém gritou da balaustrada:
— Não é aqui não!
Era, era lá.
Uma casa antiga, um batente alto, era um orquidário.
Em tudo, uma paisagem velha como soem parecer essas florestas onde as orquídeas pendem e os pássaros chegam em rota migratória.
Não procurava pássaros, nem rotas, nem migrantes, nem orquídeas; haviam-me dito: numa velha casa, e sob uma roupa breve, os cabelos esquecidos porque os espelhos não eram convocados, mesmo assim, a beleza que sempre —... eram os olhos, isto, o olhar, ali, até...
Convocara sim as testemunhas e o dedo porque — foi dito entre os soluços e os silêncios — nem saberíamos catalogá-las, de tantas, as faltas, minhas, muito mais que as naus do catálogo dos aqueus, muito mais.
Suave como o entardecer, houvera um tempo, e agora, ali, distante, a ela, eu disse [as mãos estavam frias]:.
Não vou-te levar sozinha em viagem ilha.
Lá, deserta das outras, te tomarias de ilha e tédio.
Única maldição: sozinha!.
Aqui também — ela disse — o velho à balaustrada, ele grita o tempo todo: "Não é aqui não!"—
Ilha por ilha.
Imaginas que o mandei gritar — contra ti?
Ilha...?!.
É no convívio dos espelhos, mulher,
mulheres, que te queres bendita:
o passo da graça, nem que seja
à maneira de desembrulhar teus mortos.
Haverias de te esquecer de ti
porque das outras, o Poderoso não falava a sério, acho que não:
Parirás sob o medo!
Multiplicados sejam
os sofrimentos que não são.
Verdadeiros, só o tempo-espera,
só o tempo-só.
O resto, tudo volúpia!
Volúpia maior: a invasão da pélvis, os humores — e líquido em bolsa rasgada,
uma respiração ofegante, como se todos os deuses
de tuas narinas respirassem —
aonde vais nessa fúria?
O suor do meu rosto, sim, resigno-me!
Não posso fugir sem um espelho! (Ela disse)
.
Sagrar os espelhos, entre todas as mulheres,
dia e noite,
espelhos, a tua sina.
Eu te trouxe meias pretas.
Calça-as.
Está frio, está noite.
Lá.
Agora, gostaria de saber:
a quem o velho grita?
E, se quiseres deixar avisado,
toma o giz, escreve,
Alguém gritou da balaustrada:
— Não é aqui não!
Era, era lá.
Uma casa antiga, um batente alto, era um orquidário.
Em tudo, uma paisagem velha como soem parecer essas florestas onde as orquídeas pendem e os pássaros chegam em rota migratória.
Não procurava pássaros, nem rotas, nem migrantes, nem orquídeas; haviam-me dito: numa velha casa, e sob uma roupa breve, os cabelos esquecidos porque os espelhos não eram convocados, mesmo assim, a beleza que sempre —... eram os olhos, isto, o olhar, ali, até...
Convocara sim as testemunhas e o dedo porque — foi dito entre os soluços e os silêncios — nem saberíamos catalogá-las, de tantas, as faltas, minhas, muito mais que as naus do catálogo dos aqueus, muito mais.
Suave como o entardecer, houvera um tempo, e agora, ali, distante, a ela, eu disse [as mãos estavam frias]:.
Não vou-te levar sozinha em viagem ilha.
Lá, deserta das outras, te tomarias de ilha e tédio.
Única maldição: sozinha!.
Aqui também — ela disse — o velho à balaustrada, ele grita o tempo todo: "Não é aqui não!"—
Ilha por ilha.
Imaginas que o mandei gritar — contra ti?
Ilha...?!.
É no convívio dos espelhos, mulher,
mulheres, que te queres bendita:
o passo da graça, nem que seja
à maneira de desembrulhar teus mortos.
Haverias de te esquecer de ti
porque das outras, o Poderoso não falava a sério, acho que não:
Parirás sob o medo!
Multiplicados sejam
os sofrimentos que não são.
Verdadeiros, só o tempo-espera,
só o tempo-só.
O resto, tudo volúpia!
Volúpia maior: a invasão da pélvis, os humores — e líquido em bolsa rasgada,
uma respiração ofegante, como se todos os deuses
de tuas narinas respirassem —
aonde vais nessa fúria?
O suor do meu rosto, sim, resigno-me!
Não posso fugir sem um espelho! (Ela disse)
.
Sagrar os espelhos, entre todas as mulheres,
dia e noite,
espelhos, a tua sina.
Eu te trouxe meias pretas.
Calça-as.
Está frio, está noite.
Lá.
Agora, gostaria de saber:
a quem o velho grita?
E, se quiseres deixar avisado,
toma o giz, escreve,
deixa-o à porta da geladeira, mas
o teu, escreve-o:
— Fui eu!
o teu, escreve-o:
— Fui eu!
Direto da Pele de Lontra...
... O FESTIVAL LITERÁRIO DO ANO.
"Caros, entre os dias 14 e 18 de outubro acontecerá o I Simpósio de Poesia Contemporânea (SIMPOESIA 2008), organizado pela Casa das Rosas e pela Universidade de São Paulo. O evento contará com a participação de 50 poetas brasileiros, de diferentes regiões do país, incluindo autores já conhecidos, como Claudia Roquette-Pinto, Roberto Piva, Glauco Mattoso, Ricardo Aleixo, Ademir Assunção, Frederico Barbosa, Ricardo Corona, e também poetas mais jovens.
Recitais poéticos, performances, palestras e debates acontecerão na USP, na Casa das Rosas, no Museu da Língua Portuguesa e na Academia Internacional de Cinema, dentro da programação do evento. Haverá também shows poético-musicais, apresentações de videopoesia e de poesia visual. Todas as atividades serão gratuitas, e a coordenação geral do evento está aos cuidados dos poetas Virna Teixeira e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte."
Aguardem mais informações, na Pele de Lontra,(http://cantarapeledelontra.zip.net/).
p.s. quem quiser ir comigo é só me convidar (que eu vou!)
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Real Grandeza
Em duas únicas apresentações no Sesc Pinheiros, o compositor e cantor Jards Macalé interpreta clássicos de Waly Salomão, no show Real Grandeza que conta com participações especiais de Adriana Calcanhoto e Luiz Melodia. O repertório do espetáculo é todo composto por canções de Jards e Waly gravadas principalmente na época da tropicália. Clássicos como Negra Melodia, Contrastes, Mal Secreto, Dona de Castelo, Senhor dos sábados e Vapor Barato estão presentes. O músico e seus convidados serão acompanhados por Omar Salomão, filho de Waly, e o seu grupo Vulgoqinho.O show integra a programação da exposição, Waly Salomão - Babilaques: alguns cristais clivados, em cartaz no Sesc Pinheiros
Local: Teatro Paulo Autran (Sesc Pinheiros)
Preço(s):R$ 20,00.
Data(s):27 e 28 de setembro de 2008.
Horário(s):sábado, 21h; domingo, 18h.
Endereço: Rua Paes Leme, 195Pinheiros - Zona 0 -
Telefone: 3095-9400 / 3095-9402
http://www.sescsp.org.br
http://www.sescsp.org.br
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Sudoeste
...tenho por princípios
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas
O tempo todo
Se em certos dias o vento
Quer derrubar tudo? ...
Letra: Adriana Calcanhoto e Jorge Salomão
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Antônio José Santana Martins
Babilaques
Encontro com o compositor Tom Zé, que lê e comenta poemas do escritor Waly Salomão, onde o público é também convidado a ler.
Retirada de senha na bilheteria do SESC Pinheiros com 1 hora de antecedência.
SESC Pinheiros
Dia(s) 24/09
Quarta, às 20h
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Café Filosófico em São Paulo

Se você também é um adepto do bom Café Filosófico (que passa na TV Cultura às 22:00hs do domingo) vai gostar de saber que a partir de agora o programa não será mais somente gravado em Campinas. Os encontros agora ocorrerão também em SP, às quartas-feiras, no Tom Jazz (que fica na Av. Angélica). E o melhor: não precisa pagar nada para assistir!
Os temas fazem parte de um bloco intitulado A masculinidade hoje, que conta com curadoria de Maria Rita Kehl e do jornalista e mestre em cinema Inimá Simões, e terá uma programação contínua de cinco apresentações, com diferentes especialistas.
PROGRAMAÇÃO
01 de Outubro
Maria Rita Kell (psicanalista)
Maria Rita Kell (psicanalista)
Homens em Crise ou Masculinidade em Questão? Em debate a crise de identidade do homem nos dias de hoje, o lugar do feminino e a linha tênue que separa estes dois gêneros. Após o evento haverá o lançamento do livro Deslocamentos do feminino (Imago), de Maria Rita Kehl.
08 de Outubro
Tai Castilho e Paulo Fernando Pereira de Souza (terapeutas de família).
Tai Castilho e Paulo Fernando Pereira de Souza (terapeutas de família).
O masculino e o feminino nas famílias contemporâneas.
15 de Outubro
João Silvério Trevisan (escritor e cineasta).
João Silvério Trevisan (escritor e cineasta).
Homoerotismo e o fantasma masculino.
22 de Outubro
Sócrates Nolasco (psicoterapeuta).
Sócrates Nolasco (psicoterapeuta).
De Tarzan a Homer Simpson: banalização e violência masculina nas sociedades de hoje.
29 de Outubro
Inimá Simões ( curador).
Inimá Simões ( curador).
O masculino: obsoleto ou sem rumo?
Todas as quartas-feiras, às 20h30.Ingresso gratuito: retirar com uma hora de antecedência do início do evento.Capacidade da casa: 180 pessoas.
Tom Jazz: Avenida Angélica, 2331 – Higienópolis.
Telefones: (11) 3255-0084 / 3255-3635.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
A viagem do Elefante, fragmento.
...
Não há vento, porém a névoa parece mover-se em lentos turbilhões como se o próprio bóreas, em pessoa, a estivesse soprando desde o mais recôndito norte e dos gelos eternos. O que não está bem, confessemo-lo, é que, em situação tão delicada como esta, alguém se tenha posto aqui a puxar o lustro à prosa para sacar alguns reflexos poéticos sem pinta de originalidade. A esta hora os companheiros da caravana já deram com certeza pela falta do ausente, dois deles declararam-se voluntários para voltar atrás e salvar o desditoso náufrago, e isso seria muito de agradecer se não fosse a fama de poltrão que o iria acompanhar para o resto da vida, Imaginem, diria a voz pública, o tipo ali sentado, à espera de que aparecesse alguém a salvá-lo, há gente que não tem vergonha nenhuma.
Não há vento, porém a névoa parece mover-se em lentos turbilhões como se o próprio bóreas, em pessoa, a estivesse soprando desde o mais recôndito norte e dos gelos eternos. O que não está bem, confessemo-lo, é que, em situação tão delicada como esta, alguém se tenha posto aqui a puxar o lustro à prosa para sacar alguns reflexos poéticos sem pinta de originalidade. A esta hora os companheiros da caravana já deram com certeza pela falta do ausente, dois deles declararam-se voluntários para voltar atrás e salvar o desditoso náufrago, e isso seria muito de agradecer se não fosse a fama de poltrão que o iria acompanhar para o resto da vida, Imaginem, diria a voz pública, o tipo ali sentado, à espera de que aparecesse alguém a salvá-lo, há gente que não tem vergonha nenhuma.
José Saramago
Sobre o novo livro...
José Saramago termina "A viagem do Elefante", seu novo livro O escritor português José Saramago acaba de terminar seu novo livro, "A viagem do elefante", que conta a história real de uma viagem épica de um elefante asiático que, no século 16, viajou de Lisboa para Viena.
"Por muito incongruente que possa parecer..." são as primeiras palavras de "A viagem do elefante", uma idéia que Saramago carrega há mais de dez anos, quando viajou à Áustria e, por acaso, entrou em um restaurante de Salzburgo chamado "The Elephant" (O Elefante).
O Prêmio Nobel de Literatura está atualmente em sua casa em Lanzarote (Ilhas Canárias), onde terminou seu livro e se recuperou de uma doença respiratória que ameaçou sua vida.
Mais de uma vez, ele pensou que não chegaria a concluir a obra, que tem aproximadamente 240 páginas e que chegará no segundo semestre aos leitores das línguas portuguesa e espanhola.
"Este conto, prefiro chamá-lo assim --melhor que romance--, é o que sempre pensei que deveria ser. A doença não mudou nada", diz Saramago, que afirmou que não deseja dramatizar "a situação do autor frustrado por algo mais forte que sua própria vontade".
"Eu escrevi meus três últimos livros na mais deplorável situação de saúde, nada favorável para sentimentos de alegria. Prefiro dizer: se você tem que escrever, escreverá", acrescenta.
A escrita do livro foi interrompida por sua doença e, ao ouvi-lo relatar suas sensações quando estava à beira da morte, muitos se lembram do violoncelista protagonista de seu romance "As Intermitências da Morte", embora saibam que a realidade não imitou a ficção que ele próprio criou.
"'As Intermitências da Morte' é um romance cheio de humor e ironia, não me lembro de ter assumido a ameaça que espreita o meu violoncelista. É certo que já estava doente, mas consegui construir uma barreira entre o eu que escrevia e o eu que sofria", declarou Saramago.
O escritor português não só "construiu barreiras" entre sua literatura e sua vida, mas é capaz de se isolar de tudo o que lhe cerca, até o ponto de escrever em seu computador portátil enquanto várias pessoas conversam no sofá da sala.
"Lembro que parte do romance 'Todos os Nomes' foi escrita em casa. Enquanto os pedreiros faziam seu trabalho e contavam piadas uns para os outros, eu, no quarto ao lado, separado apenas por uma lona plástica que servia de porta, continuava construindo as peripécias de meu personagem Dom José. Nunca os mandei se calarem. Eles estavam na sua, eu estava na minha", afirmou Saramago.
Segundo sua tradutora e mulher, Pilar del Río, "A viagem do elefante" é um livro no qual entram e saem personagens que estão nos manuais de história junto com personagens anônimos, pessoas vão se cruzando e compartilham perplexidades, esforços ou a harmoniosa alegria de um teto.
Pilar, que também é presidente da Fundação Saramago, acrescenta que "a compaixão solidária atravessa a obra, a distingue e a significa".
Também fazem parte da mesma ironia, sarcasmo e humor, que o escritor emprega "para salvar a si próprio e para que o leitor possa penetrar no labirinto de humanidades em conflito sem ter de renunciar à sua condição indagadora de humano e de leitor".
Se o livro contém alguma parábola, é algo que os leitores dirão, mas o autor revela que nesta nova obra não há personagens femininas com personalidade forte como Blimunda, de "Memorial do Convento", ou a Mulher do Médico, de "Ensaio sobre a cegueira".
"A viagem do elefante" foi concluída neste fim de semana e agora Saramago descansa e aproveita para ler "Diário de um Ano Ruim", de Coetzee.
(Fonte: Folha SP 08/2008)
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