terça-feira, 17 de agosto de 2010

Moça deitada na grama

Desembrulhando edição comemorativa
que ganhei : Instituto Moreira Salles

Drummond morreu no dia 17/08/1987, numa segunda-feira.

Na época, eu tinha acabado de completar 15 anos (e a festa, que acontecera no sábado, tinha sido de arromba, havíamos dançado Madonna e Michael Jackson até o amanhecer... pois é... anos 80 ).

Eu cursava a oitava série do primeiro grau e a professora chegou na sala de aula e falou "Drummond morreu".

Para nós, não houve impacto, nem tristeza. Ela também não se alongou em explicações. Acho que ela se lembrou que não havia falado durante o ano inteiro da importância daquele homem na nossa história. Fora um ano gramatical terrível e salvo exceções, os livros indicados eram apenas os obrigatórios para trabalhos escolares. De resto quem gostava de ler (como eu) tinha que se contentar em escolher as indicações do Círculo do Livro (do qual meu pai era sócio), mas lá não tinha muita poesia não...

Foi assim que Drummond partiu, sem grandes alardes na minha memória.

Em casa, meu pai amava Castro Alves e Rui Barbosa, Cecília Meirelles e Monteiro Lobato. As coleções lindas e douradas, destacavam os poetas antigos (Dante, Homero, Virgílio, Camões) e dava até medo de chegar perto. Os poetas Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e Olavo Bilac estavam sempre presentes nos rodapés dos cadernos, nunca pela importância exata que tinham, mas sim porque tinham poemas lindos pra guardar segredos.

Não, eu ainda não amava Drummond. Lembro-me que naquele tempo meu amor era pelo Vinícius. Com todo aquele derramamento de paixão, com aquela poesia apaixonante e viciante, Vinícius era meu conquistador! E, Drummond , aquele que morreu logo após o meu aniversário de 15 anos, era apenas o escritor que a gente estudava por causa da pedra, por causa do José.

Eu me apaixonei por Drummond no período de 1988 à 1990.

É estranho lembrar assim, mas eu me lembro. Foi no colegial que por ele me enamorei. Foi naquela época que eu decorei de cabo a rabo o poema MUNDO GRANDE (do livro Todo Sentimento do Mundo) e era tão grande o poema que eu não me cansava de anotar (e até hoje quando me sinto num dia estranho, mentalmente repito os primeiros versos de Mundo Grande).

Naquela época a vida acontecia berrando dentro de mim. Não sei se era a transição da idade, não sei se era a paixão por tantos escritores que iam aparecendo quanto mais eu lia, não sei se era eu crescendo para ser quem hoje eu sou... mas Drummond chegou e me arrebatou.

Junto com Drummond veio Leminski, veio Hilda, veio Caio e Clarice. Veio Fernando Pessoa e todos aqueles heterônimos fantásticos. Veio Kafka e Baudelaire e tanta gente junta que eu sofria, de verdade, eu sofria... Achava que entendia todo aquele sentimento, achava que ali (entre aquelas páginas amareladas da Biblioteca) o mundo se descortinava e aquelas palavras me consumiam, me deixavam febril por tempo indeterminado.

Comecei a criar métodos de leitura, comecei minha primeira coleção com os meus autores (não mais com os do meu Pai, que eram bons, mas não me seduziam).

Drummond disparou no meu peito, na minha vida. Com ele, muitas coisas aconteceram, passei por bons e maus momentos. Guardei-o pela minha vida inteira. Escrevi cartas com seus fragmentos, imaginei o Vestido no canto da minha sala com o tecido cerzido, puído a se desmanchar. Resíduos era absurdamente meu preferido. De Alguma poesia, o primeiro livro (publicado em 1930 em edição de 500 exemplares paga pelo próprio escritor!) comprei várias edições em sebos antigos (o do Messias principalmente). E meu amor foi crescendo, até se tornar imortal em uma lembrança que me acompanhará para sempre.

Não tenho mais o texto que escrevi na época (longo e com tanta emoção que muitas vezes me fez chorar). Mas, na última vez que meu pai ficou internado (antes de partir) estávamos a conversar, quando eu vi Drummond no quarto em frente. Olhei novamente, e tive a certeza que era Drummond. Peguei nas mãos pequenas e frágeis do meu pai naquele instante e cochichei baixinho "Pai, você está vendo o mesmo que eu ? " - ele me olhou com ar de interrogação - "Drummond ... Pai, você não está vendo ? Ali, no quarto em frente ? "

Claro que não era Drummond, eu sabia. Mas, era impressionante como se parecia. A calva luzidia marcada pelo tempo, os óculos a guardar os olhos caídos, a boca fina, a tez clara, o semblante do homem que guardava todo o sentimento...

Meu coração batia alucinado. Meu pai, sorriu. "Realmente filha, é muito parecido, poderia mesmo ser o Drummond" e eu , ainda segurando suas mãos e sorrindo veludosamente respondi-lhe "Pai, fica aqui que eu vou lá falar com ele" - como se fosse possível, meu pai andar naquele momento!

Mais devagar que mariposa pousando em luz, entrei no quarto sem fazer barulho. Era um estranho, eu sabia. Mas, era o meu estranho Drummond naquele momento repleto de dor em meu coração.

Ele estava com os olhos fechados e respirava calmamente. Um pouco envergonhada, toquei suas mãos delicadamente. Ele abriu os olhos e me observou mornamente. Então falei: "olá senhor , desculpe-me entrar no seu quarto (meu pai está ali em frente) mas... o senhor é o moço mais bonito que já vi em toda a minha vida... porque me lembra de um poeta que eu muito amo e que não está mais aqui..." - ele sorriu tão devagarzinho, que guardo até hoje a expressão dos olhos dele se alargando.

"... então eu pareço com seu poeta ?" falou sílaba por sílaba.

" sim, o senhor é quase como uma miragem, um reflexo... " - sorri sem galhofas - "... o senhor é o meu Drummond" - sussurrei.

Ele virou a mão e tocou meus dedos.

"... então eu sou o Drummond , posso sê-lo... minha filha"

Não conversamos muito, pois ele falava com dificuldade e eu estava exultante num misto de contemplação e carinho por aquele senhor desconhecido que parecia um sinal divino.

"o senhor é lindo..."

Dei-lhe um beijo na testa e me despedi, voltei ao quarto onde meu pai estava e repetia sem parar "Pai, é ele... tenho certeza, Pai... é Drummond, só pode ser..."

Eu e meu pai viramos confidentes daquele momento e rimos juntos. E, ao sair do Hospital naquele dia, eu repetia Resíduos como se todo aquele instante, estivesse gravado no poema "Ficou um pouco de tudo, no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato."

Meu Pai faleceu poucos dias depois. Mas, a lembrança daquele momento ficou guardado em mim, para a vida inteira.

Hoje, 17 de agosto de 2010, faz 23 anos que Drummond morreu. E, não por coincidência, porque a nossa vida já vem escrita do começo ao fim, eu ganhei do Instituto Moreira Salles a edição especial do livro Alguma Poesia (que recebi na sexta feira, dia 13 de agosto).

Não preciso dizer o quanto me emocionei ...

Não por ser apenas o livro, mas por ser Drummond e por tocar em mim fios invisíveis, de toda poesia tecida e imaginada, que abriga meu peito.


2 comentários:

Geraldo de Barros disse...

moça de tantas moças, eu estou longe dos blogs, dos meus principalmente, estou dando um tempo, mas quando vc me deu um toque sei lá, vim aqui até com uma vontade que não sem bem explicar, pois andava meio desanimado, mas foi te ler, ler essa postagem uma das mais lindas que já li nessa "blogsfera" que me deu um ânimo. nossa, sem palavras mesmo, estou muito emocionado com esse seu depoimento, não apenas por ser sobre um poeta que admiro muito, mas também e principalmente por sentir o quanto de humano pulsa em tuas palavras, tava sentindo falta disso nos blogs sabia e encontro sempre aqui nesse seu espaço, suas palavras sopraram em minhas narinas um perfume bom de vida. poxa obrigado mesmo por compartilhar, ia dizer esse texto, mas na verdade é, esse seu bocado de vida, valeu moça!

Beijos
G

: A Letreira disse...

G. a vida acontece de um jeito que nem imaginamos e, às vezes, um fragmento que acontece conosco... traz um milhão de sentimentos... apareça sempre!