quinta-feira, 6 de maio de 2010

Esta valsa é de quem ?

"A Valsa" (1895) CAMILLE CLAUDEL


A Valsa - A M***  

Tu, ontem  
Na dança  
Que cansa,  
Voavas  
Co’as faces  
Em rosas  
Formosas  
De vivo,  
Lascivo  
Carmim;  
Na valsa,  
Corrias,  
Fugias,  
Ardente,  
Contente,  
Tranqüila,  
Serena,  
Sem pena  
De mim!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues  
Não mintas...  
- Eu vi!...  

Valsavas:  
- Teus belos  
Cabelos,  
Já soltos,  
Revoltos,  
Saltavam,  
Voavam,  
Brincavam  
No colo  
Que é meu;  
E os olhos  
Escuros  
Tão puros,  
Os olhos  
Perjuros  
Volvias,  
Tremias,  
Sorrias,  
P’ra outro  
Não eu!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues,  
Não mintas...  
- Eu vi!...  
Meu Deus!  
Eras bela  
Donzela,  
Valsando,  
Sorrindo,  
Fugindo,  
Qual silfo  
Risonho  
Que em sonho  
Nos vem!  
Mas esse  
Sorriso  
Tão liso  
Que tinhas  
Nos lábios  
De rosa,  
Formosa,  
Tu davas,  
Mandavas  
A quem?!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  

Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues,  
Não mintas...  
- Eu vi!...  
Calado,  
Sozinho,  
Mesquinho,  
Em zelos  
Ardendo,  
Eu vi-te  
Correndo  
Tão falsa  
Na valsa  
Veloz!  
Eu triste  
Vi tudo!  
Mas mudo  
Não tive  
Nas galas  
Das salas,  
Nem falas,  
Nem cantos,  
Nem prantos,  
Nem voz!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
Não mintas!...  
- Não negues,  
- Eu vi!...  
Na valsa  
Cansaste;  
Ficaste  
Prostrada,  
Turbada!  
Pensavas,  
Cismavas,  
E estavas  
Tão pálida  
Rosa  
Mimosa  
No vale  
Do vento  
Cruento  
Batida,  
Caída  

Sem vida  
No chão!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues,  
Não mintas...  
- Eu vi!...  





Não negues... tu nem imaginavas que este poema fosse de Casimiro de Abreu e datado de 1858, não é ?

Para mim, para hoje, me serve.

2 comentários:

Marcantonio disse...

Por acaso, eu não só imaginava, como sabia.Rs. O desafio seria pelo fato de parecer moderno? Ele é conhecido também por ser todo feito com versos de duas sílabas. Dizem alguns que isso era para tentar reproduzir o ritmo binário da valsa. Será que o cara conseguiu? Rs.

abraço.

Iremar Marinho disse...

Também eu sabia, lia muito este poema quando jovem estudante. Ele conseguiu não só o ritmo da valsa, como fugir da emoção. rs