domingo, 14 de fevereiro de 2010

Valentine's Day

Foto arquivo pessoal , envolta em voil... a pele.

Valentine´s Days.

Pegou o batom vermelho e contornou os lábios lentamente.

Os olhos, delineados, declaravam desejos secretos.

Colocou o corpete preto de veludo, para que as mãos deslizassem pelo corpo, sem tropeços. Deu dois lacinhos pequenos, para que se soltassem quando a música de amor tocasse, como nos filmes antigos, que via nos cineclubes do cidade.

Com o tule de suas telas, fez adereço para as costas, nuas.

Sentiu-me mulher, não fatal, mas com asas.

Rasgou o tecido de Voil, que passara a noite desenhando (leve, semi-transparente e simples mas que em suas pequenas mãos parecia chantilly escorrendo entre os dedos) e amarrou na cintura como se fosse um sari. Nele havia desenhos de desejos, nele um conto, nele palavras deitadas que lhe moldavam a pele)... mais bonito e sensual do que qualquer vestido de manequim, tinha certeza.

Pegou o perfume que mais gostava, Very Irrésistible - Eau de Parfum - Givenchy, o liláz que seduzia o olfato e deixava um rastro de desejo da nuca ao tornozelo, e romanticamente vaporizou duas gotas no ar.

Projetou os seios para frente e entrou na nuvem delicada de cheiro.
Sentia-se audaciosa, afinal era Valentine´s Day.

No quarto, espalhou rosas. Forrou as paredes com cortinas desenhadas por si mesma. Cada parte, contava uma estória de mil e uma noites. Era para o tempo se perder, para os olhos se perderem, para não encontrarem o caminho de volta.

Espalhou poemas impublicáveis de Drummond pelo aparador. Ah, Drummond, moço de tantos poemas que nunca tivera coragem de ler com ninguém ... " Talvez que a moça hoje em dia... Talvez. O certo é que nunca. E se tanto se furtara com tais fugas e arabescos e tão surda teimosia, por que hoje se abriria? Por que viria ofertar-me quando a noite já vai fria..." releu baixinho...

Abriu um prosecco, adorava. O líquido escorreu pela sua boca e ela tocou os lábios, antecipando prazeres.

Beber lhe dava uma ousadia que a fazia corar no dia seguinte, diante das lembranças ...

Ligou o som e deixou o ar se invadir de Sade (a cantora e o Marquês).

Com a taça entre os dedos, dançando devagarzinho, cantarolou sussurrando "Your love is king...crown you in my heart. Your kisses ring...round and round and round my head. I'm coming up, I'm coming. You're making me dance, inside..." . Esta canção a enchia de paixão, traduzia exatamente o que sentia naquele instante, o que queria dizer.

Sorriu levemente, subiu a meia de seda até o alto da coxa... a campainha tocou como sino de castelo antigo.

Ela correu para colocar o par de sapato de salto alto, com coração de strass nos pés...

Enquanto se encaminhava para a porta a música repetia baixinho "your love is real...is real"

2 comentários:

Rodrigo . disse...

Por acaso é a Genoveva, a moça dos mimos, do conto: "Noite de almirante", do Machado? Me lembrei dela ao ler esse conto. É lindo e envolvente. Parabéns!

: A Letreira disse...

Genoveva sou eu, com telas e tules... voial...