sexta-feira, 25 de julho de 2008

O tempo, esta coisa estranha que nos rodeia.

Corujas me lembram uma antiga senhora
(... uma senhora muito engraçada, que um dia passou pela minha vida, e que pedia pizza estendendo lençóis na janela...)

Delicatessen
Hilda Hilst

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

Texto extraído do jornal “Correio Popular”, de Campinas-SP, edição de 01/03/1993.

4 comentários:

Micheliny Verunschk disse...

ôpa, e eu ontem, feito a Catirina do Bumba-meu-boi, tive desejo de comer línga de boi.

Deu um trabalho! Mas comi :)

Essa coruja foi a Bel Barzaghi que fez, né? Amo as coisas que ela faz.

não assisti ao filme, mas vamos fazer sim, um clube de leitura.. Me animei!!!

poetriz disse...

A gente realmente nunca conhece alguém completamente.
Nem mesmo aquela que vemos ao olhar no espelho...

Bjs!

Sonia A Dias disse...

Hy, adorei teu blog. Muito bonito e cheio de Caio e de Clarice. Vou voltar, sempre. Bye, Sô.

Sonia A Dias disse...

Mi, língua de boi é coisa séria até porque quando bem feita é muito bom. Minha mãe quis comer formiga, formigueiro e até terra vermelha. Com meu irmão do meio, a vontade de comer fígado foi tanta que arrancou no dente um pedaço todo cru. Meu irmão nasceu com o pedaço na costela, é bonito o sinal e conta a história da vida dele! Espero que daqui pra frente teus desejos sejam mais comuns, senão Bolo tá perdido! Beijoprocês, Sônia.