Mostrando postagens com marcador Série: Arnaldo Antunes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Série: Arnaldo Antunes. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O avesso da véspera

acrílico sobre tela by Sônia Alves Dias - estudo de composição


Insônia
(arnaldo antunes)

meia noite e meia
uma pedra range
uma porta late
um cachorro longe
o motor de um carro
no portão de casa
bate o vento passa
na janela inteira

meia lua cheia
na montanha imóvel
que me olha imensa
fora do que penso
no meio da sala
meu sapato encalha
nos pés da cadeira
um som que não pára

no silêncio claro
do vidro uma abelha
zumbe em minha telha
chove minha cara
velha agora espelha
na poça uma estrela
treme e atravessa
o avesso da véspera
desamanhece
e eu desadormeço

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Passagens



As portas – de Arnaldo Antunes
[do livro As coisas]

Para passar de um lugar a outro existem as portas. Em geral são de madeira, mas às vezes não. De ferro em geral são os portões, mas às vezes de madeira. Portões de madeira chamam-se porteiras. Para sair de um lugar entrando em outro, como nos partos, as portas existem. As moscas pousam nelas. Os meios de transporte chegam ou vão embora. As portas são meios de transporte que ficam no mesmo lugar. Em geral brancas, como as paredes geralmente. Movem-se mas ficam no mesmo lugar, como o mar. As moscas pousam nelas. As paredes ficam paradas. Aranhas fazem teias nelas. Não nas portas, que têm dois lados; nas paredes, que só têm um lado, ou outro. Os olhos pousam nelas.