segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Nouvelle Cuisine



Carlos é um grande cantor, mas não lança discos já há algum tempo. Tem trabalhado como arquiteto (é formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) na Casa das Rosas, espaço cultural da Av. Paulista, em São Paulo, e feito shows eventuais, depois de ter parado de cantar no bar Baretto, também na capital paulista, onde era “fixo”. O repertório dos shows varia conforme a ocasião. No último dia 17, por exemplo, no I Encontro Nacional de Museus, no Memorial da América Latina, Carlos e o violonista Luiz Ribeiro apresentaram canções cujas letras evocam “passado”, como “Saudosismo”, de Caetano Veloso. Em maio, na esteira das comemorações referentes ao Ano da França no Brasil, Carlos interpretou músicas francesas no auditório da CPFL Cultura, em Campinas.

Um CD, porém, mais de dez anos após o último álbum com o Nouvelle, está nos planos do cantor. Carlos já tem prontas as ‘bases’ de um disco de sambas, que pretende lançar “assim que tiver tempo de fazer tudo bem”. Isto porque, além de estar atarefado com a arquitetura e os shows, passou recentemente por um problema na voz (“Disfonia”, afirmou) e teve de fazer tratamento com fonoaudiólogo. Mas agora está ok.

Nessa conversa que tivemos por telefone, numa tarde de sábado, Carlos revela por que deixou o Nouvelle Cuisine, comenta suas influências no canto e declara-se favorável ao compartilhamento de músicas pela internet. Confira.

(por Lucas Colombo)

1. Carlos, vou começar com uma pergunta clichê, mas inescapável: “por que você saiu do Nouvelle Cuisine?”.
Carlos Fernando – Houve um descompasso entre mim e os demais integrantes. Eu estava 100% dedicado ao Nouvelle Cuisine, e os outros tinham trabalhos paralelos. A produtividade estava um tanto lenta por causa disso. Eu tinha um projeto chamado Bossa Nouvelle, para trabalhar a bossa nova como conceito, fazer uma releitura de alguns temas clássicos do gênero e outros menos conhecidos. Eu propunha isso para o grupo, e as atitudes variavam. O Guga e o Maurício (baterista e guitarrista, respectivamente) eram muito preocupados com a realidade mercadológica, duvidavam se o projeto ia funcionar, não avançavam, e eu lá mandando brasa... A ponta do iceberg foi essa. Mas já havia um descompasso, antes.

2. O Nouvelle Cuisine surgiu numa época não muito rica da música brasileira. Os anos 80 foram marcadamente pop, nasciam bandas que faziam um rock bem pobrinho... E vocês, jovens, apareceram com uma proposta de sofisticação nos arranjos, de tocar música boa, clássicos com roupagem nova e elegante. Foi algo consciente, ou não? Vocês simplesmente se reuniram e deu no que deu, ou pensaram: “nos recusamos a ser mais uma Legião Urbana”?...
Carlos Fernando – Nós éramos amigos havia muito tempo. Tocávamos jazz por prazer e, sim, odiávamos o cenário musical da época. Uma amiga do Guga que fazia assessoria de imprensa para um bar chamado Espaço Off, de São Paulo, nos convidou para tocar lá, e foi só por causa desse convite que decidimos nos apresentar em público. Fizemos um show para uma plateia “média”, não tinha muitas pessoas. Mas houve boca-a-boca, e, na segunda noite, lotou. A repercussão foi uma surpresa para nós. A Folha começou a comentar os shows, a Veja... Aí gravamos o primeiro disco, em 1988. Foi uma bola de neve. Mas tudo plenamente consciente. Era o que gostávamos na música.

3. Sua maior influência no canto continua sendo o Mel Tormé? E o que você acha dos atuais jovens intérpretes do jazz, como Esperanza Spalding e outros mais ‘ecléticos’ como Michael Bublé, Diana Krall e Madeleine Peyroux?

Carlos Fernando – Gosto muito do Mel, mas quem mudou minha vida foi Sarah Vaughan. Acho-a genial. Ela tem uma competência harmônica e uma “frieza racional” que é maravilhosa. Soma uma certa malícia formal a um timbre belíssimo. Em alguns discos, fez coisas que a Ella Fitzgerald, por exemplo, nunca chegou perto de fazer. Não conheço muito o trabalho da Esperanza Spalding, não posso opinar. Já a Madeleine Peyroux, não há como negar, é imitação da Billie Holiday. Sinceramente, ela não me diz nada. O Michael é uma imitação do Mel Tormé também. É muito competente do ponto de vista técnico, mas ainda penso que ele precisa mostrar a que veio. Falta ver que música ele realmente quer fazer.

4. Os três álbuns do Nouvelle Cuisine tendo você como vocalista não foram lançados em CD. Neste formato, há apenas a coletânea “E-collection”, com algumas faixas de cada disco. Na internet, contudo, há vários links para download gratuito das músicas do grupo, e do seu CD ao lado do Toninho Horta também. Isso te incomoda?

Carlos Fernando – O primeiro disco chegou a sair em CD, mas com uma tiragem bem discreta. Dessa coletânea aí, eu não gosto. Nós apresentamos à gravadora as músicas que gostaríamos que entrassem, e a Warner acabou lançando uma coisa totalmente diferente, inclusive com faixas que nós tínhamos descartado dos outros discos, porque não apreciávamos o resultado. Realmente, não gosto. Quanto aos downloads, vejo como uma prática inevitável – e muito bem-vinda! Foi um jeito que o mundo encontrou para se virar. Sou favorável. Eu mesmo mando, para amigos, links em que meus discos podem ser baixados. Pirataria pode até ter um efeito saudável: reforçar a importância do show, da presença física do artista perante o público. O que dá dinheiro para os músicos são mesmo os shows. Acho a internet ótima, o futuro da informação é esse. A mobilidade que ela proporciona é fantástica. É preciso ter mais consciência do que ela significa do ponto de vista histórico. Olhe o que aconteceu no Irã. Graças à internet, ninguém mais consegue fazer sacanagem em lugar algum do mundo. É totalmente livre.

Um comentário:

Carlos Couto disse...

Gostei do teu blog. Faço uma proposta, eu te sigo, vc me segue no [ no poem ], passe lá!
Um ósculo/carlos