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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Totonha



Neste dia (um sábado em 2007) quando Marcelino leu este conto (Totonha) eu passei horas relembrando a fala. Este moço tem uma oralidade lindíssima. Lembra vó antiga, lembra o passado, lembra casa sem televisão, rua com lampião.

Agora eu sei, que ele bebeu da mãe todo este linguajar, estes trejeitos, estas formosuras e ficou mais admirável ainda.

A primeira vez que vi Marcelino (há tantos anos, que parecem décadas! ... lá no Itaú Cultural) eu fui fisgada pelos contos orais dele. Ele falava e não tinha quem falasse junto. Era tudo silêncio, porque aquela voz era tão original, tão distante das que conhecemos e ouvimos diariamente (é marcante, pausada, silábica, longelínea) que é pra parar mesmo, pra atentar os causos, conhecer os personagens, suas histórias.

Marcelino ganhou um Jabuti com este livro (Contos Negreiros) e acho que foi Totonha quem deu viu ?





Totonha - Marcelino Freire


Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso.

Deixa pra gente que é moço. Gente que tem ainda vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba?


O governo me dê o dinheiro da feira. O dente o presidente. E o vale-doce e o vale-lingüiça. Quero ser bem ignorante. Aprender com o vento, ta me entendendo? Demente como um mosquito. Na bosta ali, da cabrita. Que ninguém respeita mais a bosta do que eu. A química.

Tem coisa mais bonita? A geografia do rio mesmo seco, mesmo esculhambado? O risco da poeira? O pó da água? Hein? O que eu vou fazer com essa cartilha? Número?

Só para o prefeito dizer que valeu a pena o esforço? Tem esforço mais esforço que o meu esforço? Todo dia, há tanto tempo, nesse esquecimento. Acordando com o sol. Tem melhor bê-á-bá? Assoletrar se a chuva vem? Se não vem?

Morrer, já sei. Comer, também. De vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, não uma doença. Tenha santa paciência!

Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?

No papel, sou menos ninguém do que aqui, no Vale do Jequitinhonha. Pelo menos aqui todo mundo me conhece. Grita, apelida. Vem me chamar de Totonha. Quase não mudo de roupa, quase não mudo de lugar. Sou sempre a mesma pessoa. Que voa.

Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior. Deus que me ensinou. Só quero que me deixem sozinha. Eu e minha língua, sim, que só passarinho entende, entende?

Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever.

Ah, não vou.

Blogs do Marcelino:  
http://marcelinofreire.wordpress.com/

Sertânia




Dona Maria do Carmo, mãe de Marcelino Freire, mostra porque o filho é tão vigoroso em suas falas marcantes

"Não sou agoniada, sou uma senhora determinada... até hoje tenho coragem!"

Linda, viu...

sábado, 28 de maio de 2011

Best First Lines




Trechos iniciais de grandes livros, num vídeo que é um show tipográfico, de animação e de vozes para as versões em audiobook. A lista completa é apresentada no final.
Dica do Almir

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os dez mais, por Marcos R.B.Lima


“Veinte poemas de amor y una canción desesperada” - Pablo Neruda
“Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade” - Oswald de Andrade
“Poemas” – Vladimir Maiakóvski
“Los Conjurados - Jorge Luis Borges
“Galáxias - Haroldo de Campos
“Aprendiz de Feiticeiro” – Mario Quintana
“Livro de Sonetos” - Vinicius de Moraes
“Manuel Bandeira - Libertinagem
“Um terno de pássaros ao sul” - Fabrício Carpinejar
“Odes de Ricardo Reis” - Fernando Pessoa (pseudônimo)

Marcos R. B. Lima

sábado, 14 de maio de 2011

Incandescente


Rouge

Vestido turco de lantejoulas. Batom carmim. Esmalte Revlon.
Um coração vermelho de cristal Swarovski. Bloody Mary
Queen of Scots. In my end is my begginning.
O planeta Marte, visto a olho nu. Bélica.
A paixão sua pedra de toque: dois rubis
indianos presos nas orelhas, um cinturão de diamantes -
também a frieza é humana. Não há visão sem fogo,
é incandescente a fúria, a labareda. A cor púrpura, império.
Nobreza. Veludo. Um buquê de magnólias.

Virna Teixeira

quinta-feira, 31 de março de 2011

Brésil

 Edição bilingue de Oswald de Andrade

O professor Antoine Chareyre, da Universidade de Grenoble, organizou a edição bilingue (francês-português) do Poesia Pau Brasil e do Manifesto da Poesia Pau Brasil, de Oswald de Andrade, publicado por Éditions de la Différence.

O professor Chareyre, que é “Mapeado” do Conexões Itaú Cultural, escreveu também o Prefácio e notas para a edição. Os dois livros seminais de Oswald de Andrade ganham uma bela versão francesa. 

terça-feira, 15 de março de 2011

Das perdições


Fazia tempo que eu não sentia esta paixão doentia. Fazia tempo que eu não me sentia incendiar. Fazia tempo que eu não me permitia, ler nas mais diversas horas do dia, um livro novo querendo acabar, mas não querendo terminar....

É uma sensação sem igual.

Ando assim agora, seguindo um escritor morto, catando-o por aí, buscando-o incessantemente.

Sándor Márai, virou meu novo amor. E, não sei onde vai parar esta paixão, mas já li 3 livros e em cada um mais me encontro, mais me entrego, mais me deixo levar... 

Quero tudo, quero todos, não consigo sossegar...


Os dez mais, por Sônia (a Letreira)



"Relíquias de casa velha" - Machado de Assis
"Lavoura Arcaica" - Raduan Nassar
"Grande Sertão: Veredas" – Guimarães Rosa
"Angústia" - Graciliano Ramos 
"Os dragões não conhecem o paraíso" - Caio F. Abreu
"A hora da estrela" - Clarice Lispector
"Corpo de baile"- Guimarães Rosa
"A vida como ela é" - Nelson Rodrigues
"Crônica de uma casa assassinada" - Lúcio Cardoso
"Dois irmãos"- Milton Hatoum

Fonte: Minha estante afetiva 
: Brasileiros (romances / contos)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Origami



"na dobra do papel guardei sentimentos
que só suas mãos podem ler"

Geraldo de Barros  - Sem Catraca

domingo, 13 de março de 2011

Retrato

Anjo torto


Palestra de Ademir Assunção sobre Torquato Neto no dia 22 de março, às 19h, no Centro Cultural São Paulo. O programa faz parte do ciclo mensal Poetas de Cabeceira.
 
Poetas de Cabeceira é um ciclo mensal de palestras em que um convidado falará sobre o seu poeta favorito, abordando biografia do autor, contexto histórico, análise da obra e leitura comentada de poemas do autorm. O objetivo da atividade é levar ao público jovem informações sobre autores importantes da literatura brasileira e internacional.

Shampoo

Foto arquivo pessoal

Shampoo

“No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
...
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
...amassada e brilhante como a lua.”



Elizabeth Bishop

Os dez mais, por Claudius J.Rocha Pitta


JEAN-CHRISTOPHE - Romain Rolland
DAVID COPPERFIELD - Charles Dickens
O QUARTO VAZIO - Charles DMorgan
O ASNO DE OURO - Lucius Apuleio
RECORDAÇÃO DA CASA DOS MORTOS - Fiódor Dostoievski
A MONTANHA MÁGICA - Thomas Mann
NOVELAS EXEMPLARES - Miguel de Cervantes
O FANTASMA DE CANTERVILLE - Oscar Wilde
LOLITA - Vladimir Nabokov
NO FIO DA NAVALHA - William Somerset Maugham

Fonte: A estante afetiva de Claudius Rocha Pitta
Literatura Estrangeira

sábado, 12 de março de 2011

Tempo de embebedar cavalos


                                                  foto arquivo pessoal

Ontem à noite (sexta-feira) enquanto o marido aquecia as panelas para preparar umas delícias e eu bebericava no balcão da cozinha, ele me perguntou quem é o escritor da atualidade que eu daria tudo para escrever ao lado dele... não me importando se era dia ou se era noite, sem cobrar, sem pagar, apenas para estar ali absorvendo o máximo possível ... vivendo.

Estou matutando até a agora... porque sinceramente, quase todos que eu daria tudo para estar por perto, estão mortos. E, alguns vivos que admiro muito como escritores, depois do advento internet (facebook / twitter / blogs / etc) continuam insuperáveis nas palavras, mas são tão mesquinhos e banais na vida virtual (quase real!) que não tenho vontade nenhuma de aprender quase nada com eles...

Quando eu penso em alguém que gostaria de conviver para apre(e)nder, eu penso não só nas palavras, penso também na vida, no que eu poderia captar além da escrita. Eu preciso de encantamentos, de paixão violenta. Não importa o sexo, a idade, a escrita. Poderia ser Anais Nin, poderia ser Bocage, o Sàndor Màrai, o Saramago, o Leminski, poderia ser até o Manoel de Barros.

Mas, qualquer um deles, precisaria (para mim) ser insuperável na arte de viver e escrever.

Não gosto de gente fake,  de personagens criados para agradar o público, de escritor pré-fabricado que frequenta cursinho para aprender a escrever e depois publica o que acredita ser um grande livro. Não gosto, não gosto mesmo (e me desculpem os amigos que dão estes tais cursos e formam uma legião de escritores massificados "todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros").

Gosto de quem me esbofeteia literariamente ou me faz adormecer com sensibilidade e calmaria. Raduan Nassar ou  Hilda Hilst. Fernando Pessoa ou Emily Bronte. Augusto dos Anjos ou Samuel Beckett. Há uns tantos que eu seguiria por aí, correria atrás, me devotaria.

Por isso, talvez, hoje uma das pessoas que mais admiro e gostaria de ver ainda escrevendo uma obra genial é um escritor chamado Ademir Assunção.

Ainda ontem, falando sobre ser ou não ser nas redes sociais, meu marido me perguntou "mas, independente da pessoa estar aquém do que você imagina, você acredita que ela seria capaz de receber dinheiro para fazer diferente o que de forma sincera e bombástica faria ?"

Poucos não seriam traídos, poucos não se venderiam... mas o Ademir, eu acredito, seria um destes poucos. E, eu ainda acredito num livro arrebatador dele, daqueles, da galeria dos memoráveis, feito saco de pancada, feito saco de rato, feito uma rebelião... na zona fantasma.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Noites oníricas

Brumas de carnaval


“– É muito dinheiro para uma noite de bebedeira.
– O carnaval não dura uma noite – sentenciou Gauna.”


“Melhor romance argentino de todos os tempos” na opinião do escritor portenho Rodrigo Fresán, O sonho dos heróis (Cosac Naify, 2008) narra noites oníricas de carnaval – momentos envoltos em festas e bebedeiras lideradas por Emilio Gauna, jovem mecânico que decide, durante os três dias de festa, dar cabo do dinheiro que ganhara em uma corrida de cavalos. Ao final do processo, o personagem recolhe reminiscências, uma certeza – a de que “nunca sentira tanta dor de cabeça, nem tanto cansaço” – e o desejo, concretizado três anos mais tarde, de relembrar algo muito importante ocorrido na ocasião, mas que não se lembra ao certo o que foi.

Sudoeste

foto arquivo pessoal


‎"Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora;
e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro."

(Virgínia Woolf)

Uma água, sem gás

 Arte - arquivo pessoal (nankin sobre papel)
Ana Cristina César

Um Beijo
que tivesse um blue.
...Isto é
...
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto à minha sombra

desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido

talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"

diria meu amorVer mais