JC – Você diz que “a memória é uma ilha de edição”, explique melhor essa expressão.
Waly Salomão – Já acompanhei diversas ilhas de edição na minha vida, sei como elas funcionam. A memória é mesmo isso. Sou contra essa história de esconder o que se fez no passado. Colocar para debaixo do tapete o desbunde. Como também de ter uma atitude apenas progressista, de só olhar para o futuro, esquecendo assim o passado. Há pouco tempo, por exemplo, viajei à Síria, que é a terra do meu pai, para saber mais sobre minha história. Adriana Calcanhoto, que já musicou e gravou poemas meus, comprou a minha coletânea e me ligou dizendo que iria fazer show em Portugal e que leria o meu poema Operação Limpeza, no qual falo dessa coisa da língua portuguesa de se orgulhar de ter a palavra saudade no seu vocabulário, quando o Brasil é uma nação ainda em formação, muito jovem. E falar de saudade nessa crise que o Brasil vive é complicado. Somos muito jovens para nos orgulharmos da palavra saudade...
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Algaravia
Fragmento - Entrevista - Jornal do Comércio On Line - Recife - 24.06.2001
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Babilaques
Nos anos 70, Waly Salomão [1943-2003] produziu uma série de propostas visuais em Nova York, Rio de Janeiro e Salvador que chamou de “Babilaques”. Seu autor pretendia mostrar o conjunto completo no circuito de arte, sob o título “Waly Salomão: Babilaques, Alguns Cristais Clivados”, mas não chegou a fazê-lo.
Os “Babilaques”, datados de 1975-77, são peças de expressão híbrida ou “polissêmica”, como descreve Waly. Os cadernos manuscritos eram abertos em uma certa página determinada pelo artista, e fotografados em diversos ambientes inusitados, também escolhidos por ele. O registro fotográfico dessa operação é um “Babilaque”.
Em 1979, Waly escreveu que não os chamaria de “poemas visuais”, pois a expressão era insuficiente para abarcar a interrelação de linguagens dos “Babilaques” - texto, desenho, colagem, planos, textura, cor, luz, ângulo, corte, imagens impressas e objetos do cotidiano. É, segundo ele, a experiência de fusão da escrita com a plasticidade.
Os “Babilaques”, datados de 1975-77, são peças de expressão híbrida ou “polissêmica”, como descreve Waly. Os cadernos manuscritos eram abertos em uma certa página determinada pelo artista, e fotografados em diversos ambientes inusitados, também escolhidos por ele. O registro fotográfico dessa operação é um “Babilaque”.
Em 1979, Waly escreveu que não os chamaria de “poemas visuais”, pois a expressão era insuficiente para abarcar a interrelação de linguagens dos “Babilaques” - texto, desenho, colagem, planos, textura, cor, luz, ângulo, corte, imagens impressas e objetos do cotidiano. É, segundo ele, a experiência de fusão da escrita com a plasticidade.
Me segura que eu vou dar um troço

ADUANA
senha e sonho e sanha com que esta palavra penetra no baile
máscara de maria-ninguém de fatura recente
ou será arca de ganas do tempo do rei
cadê o cabaço lacre de selada estampilha exigido por lei
cadela safada muamba curtida no bodum das galés
saturnália entrudo ostra grudada ao casco do navio
fidalga de tamanco sem nem um pingo acre de sangue azul real
verbete acessado de uma enciclopédia cibernética de gafes
vestes inconvenientes de quem não sabe com quem está falando
usa papel-carbono pra burlar alfândegas
chega sem passaporte sem convite sem o répondez s’il vous plait
cara de pau dribla a catraca do guichê da chefia do cerimonial
não exibe pendurado no peito atestado de salubridade pública
miss maxixe
embigada
corta-jaca que se insinua nos finos salões
palavra empenhada sem lastro de chão ou teto patrimonial
nem pé-de-meia tem
casca grossa não tem no cu o que periquito roa
hectares de terras que possui são as que carrega debaixo
das sujas unhas
heranças de nenhumas capitanias heriditárias
necas de pitibiribas de sobrenomes ilustres
topless e desnuda de sesmarias
de família ignorada do frio da pá ao pavio da foice e do sudário
pó de pau de anta
vassoura de bruxa
vírus viridiana da próxima epidemia mundial de gripe
vetada pelo código de barras do produtor e do consumidor
inhaca de marafona impudica
vira-lata da chinfra arraia-miúda da folia da grei
espojada se emprenhando ao vento vário na caçamba de camião
ou ao relento ralando as coxas nuelas no lombo neutro do sexo
da mula sem cabeça
(Waly Salomão – Tarifa de Embarque – Editora Rocco, 2000. pp. 64/65.)
senha e sonho e sanha com que esta palavra penetra no baile
máscara de maria-ninguém de fatura recente
ou será arca de ganas do tempo do rei
cadê o cabaço lacre de selada estampilha exigido por lei
cadela safada muamba curtida no bodum das galés
saturnália entrudo ostra grudada ao casco do navio
fidalga de tamanco sem nem um pingo acre de sangue azul real
verbete acessado de uma enciclopédia cibernética de gafes
vestes inconvenientes de quem não sabe com quem está falando
usa papel-carbono pra burlar alfândegas
chega sem passaporte sem convite sem o répondez s’il vous plait
cara de pau dribla a catraca do guichê da chefia do cerimonial
não exibe pendurado no peito atestado de salubridade pública
miss maxixe
embigada
corta-jaca que se insinua nos finos salões
palavra empenhada sem lastro de chão ou teto patrimonial
nem pé-de-meia tem
casca grossa não tem no cu o que periquito roa
hectares de terras que possui são as que carrega debaixo
das sujas unhas
heranças de nenhumas capitanias heriditárias
necas de pitibiribas de sobrenomes ilustres
topless e desnuda de sesmarias
de família ignorada do frio da pá ao pavio da foice e do sudário
pó de pau de anta
vassoura de bruxa
vírus viridiana da próxima epidemia mundial de gripe
vetada pelo código de barras do produtor e do consumidor
inhaca de marafona impudica
vira-lata da chinfra arraia-miúda da folia da grei
espojada se emprenhando ao vento vário na caçamba de camião
ou ao relento ralando as coxas nuelas no lombo neutro do sexo
da mula sem cabeça
(Waly Salomão – Tarifa de Embarque – Editora Rocco, 2000. pp. 64/65.)
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Gigolô de Bibelôs
Waly era um gigolô: de bibelôs, de babilaques e de palavras.
Se você conheceu, se nunca leu, se já ouviu em algum lugar, se nem lembra de já ter ouvido veja e reveja aqui...
Gigolô de Bibelôs - "Título que intitula o livro, lançado originalmente em 1983, que, agora, ganha uma reedição pela Rocco, Waly Salomão oferece sua poesia delirante e verborrágica, sem prolixismos baratos, sem resvalar no vago. Grande leitor da poesia universal e do mundo, reprocessava todas as influências do inglês William Blake ao nosso João Cabral de Melo Neto para depois canalizá-las em seus versos. Como poeta, Waly dava valor ao ofício de sua arte ah vale "a pena ser poeta "e se debruçava sobre ela com afinco e suor "meu segredo é que sou rapaz esforçado".
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