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domingo, 15 de março de 2009

Era um homem grandioso...


...destes que a gente não sabe como veio ao mundo. Que tem tanto amor pra dar que uma vida parece pouca e absurda. Era um homem de honra, daqueles de antigamente. Que fazia questão de se orgulhar de muitas coisas, de muitas pessoas e de muitos sentimentos. Era um homem bonito de se ver de perto. Bem de perto, com o olho no olho, mirando aquele azul que mais parecia céu, que mais parecia mar. Era um homem cheio de coração, cheio de boas intenções e de bondades explícitas que não ficavam escondidas no bolso do paletó ou em alguma gaveta por aí.
Era um homem lindo pra se ter como pai, como MEU PAI.

Coração bandido


... no dia da missa de 7º dia da minha Avó Ana, meu pai chegou atrasado porque o médico demorou para lhe dar o resultado do exame do coração: "Sr Aloisio, o senhor tem poucos anos de vida...".

Minha avó nem havia chegado no céu ainda e com certeza não pode fazer milagres...

Coração roubado

... quando meu Pai nos contou o que o médico disse, senti que todo aquele azul que lhe pintava o rosto nunca mais brilharia pelo infinito . em mim, a escuridão se instalou e demorou para eu virar uma moça de ouro novamente...


um rio engolfou corpo adentro
uma tempestade transbordou do copo cheio
um litro de ar
meio litro de rio
e o coração ficou à deriva

Coração comprimido


... eu já era adulta de corpo e de alma, quando soube que meu Pai tinha um coração desvairado. Era de maior idade, mas dependente exclusiva do afeto, do afago e da infinidade de ternuras que ele guardava para nos ofertar constantemente. Daí chegou um tempo em que a vida ficou confusa e coração dele parecia querer parar de bater ou batia incessantemente , à seu bel prazer, nas mais variadas horas do dia.
Eu pensava toda noite antes de dormir... "coisa díficil, domar um coração comprimido..."

o coração dá a vida
mas quando fraco fica
toma a vida
de 4 em 4 horas

Coração vendido

... ele era um grande descobridor das letras, dos mapas e de enciclopédias. sabia tudo sobre história, sobre geografia, política e escritores antigos. adorava Ruy Barbosa e Castro Alves. com Espumas Flutuantes se deleitava. não era homem de dizer bobagens, nem nomes feios, nem coisas impronunciáveis. um lorde, quase rei, soberano em sua majestade. de suas mãos vi nascer muitas letras de forma, de seus olhos pequenos surgiram muitas grandiosidades. nem sei se aprendi tudo o que devia, dentro dele havia tantas estórias que eu até me perdia. mas, sei que deitada no seu peito, me transformei numa moça de bem. destas que nascem de pessoas iluminadas e a gente nem sabe de onde tanta luz vem...


ERA UM CORAÇÃO DE OURO
MAS DEUS
VENDEU A PREÇO DE BANANA
NA FEIRA DE DOMINGO

Coração pintado


... depois de um tempo, ele descobriu que o Hospital não era a pior parte. ruim mesmo era quando o coração doía até não mais poder. então houve uma fase em que era uma coisa mais ou menos assim: hospital-hospital-casa-hospital-casa-casa-hospital-hosp... cas... hos... ca... ho.. enfim, era tanto lá e cá que a gente nem tinha mais direção.

ele, falante, logo tratou de fazer amizades e contar histórias de antigas civilizações. eram tantos médicos e enfermeiras, que tempo não faltou para conhecer um por um e suas preferências. na época, prometeu à Dra Gioconda, sua médica de cabeceira, um quadro pintado por mim. ela nunca recebeu o quadro e eu nunca tive coragem de conversar com ela sobre telas ou outras coisas do coração...

dra Gioconda tinha um sorriso enigmático.

mas, todos sabiam
o que ela queria dizer
(e não dizia)

Coração calado


.. um dia ele acordou e achou que a vida podia ser uma festa. pediu um cálice de vinho (que não bebia há anos) , sentou, bebeu e olhou para o teto. depois, foi até o quarto deitou e dormiu...

Maria isto é um milagre!
Um milagre!
Um milagre!
e Santa Maria sorrindo
ligou para o Hospital.

Coração sem ponte

... sinto falta de entrelaçar os dedos com ele e sairmos a bailar. ele que nunca soube dançar, tinha uma filha que queria ser dançarina. era gostoso, tentar dois pra lá e dois pra cá e não conseguirmos, desistirmos e nos abraçarmos sorrindo. a dança , daqueles abraços, que fazíamos pós qualquer tentativa de dar os ares no salão, era infinitamente melhor do que qualquer exímio bailarino pudesse supor.
com seus óculos inseparáveis (eu até achava mesmo que ele já tinha nascido com eles!) via tudo com suas lentes de aumento. e, mesmo com um coração sem saída, arrumava horas vagas para brincar de amor e declarar bem-querências aos quatro ventos... exímio marinheiro, sabia que o mar bravio era perigoso mas não invencível...

NÃO PRECISAVA DE TRANSPLANTE
NEM DE MARCAPASSO
NEM DE PONTE DE SAFENA

AÍ , DEUS ACHOU QUE ELE NÃO PRECISAVA MAIS DE VIDA....

Coração passarinho



... naquela quinta feira, a médica de plantão me chamou na sala principal. eu seria a acompanhante noturna e deveria saber das condições dele. ele estava vivo, mas a doença estava numa fase terminal (aquilo queimou em mim, e foi muito difícil aparentar uma serenidade que eu estava longe de sentir) "ele poderia viver vários meses... " ( "como assim ? " era a mensagem que meu cérebro enviava ao meu coração, "que tempo é este que nos tira a esperança ? a pessoa que mais amamos ? " ) , ela tinha cabelos claros tingidos - na altura dos ombros, e disse-me baixinho "ele pode ainda, morrer como um passarinho, e nem sentir mais dor ..." (e meu coração, batendo alucinado, tentava enviar ao meu cérebro a lucidez que eu não mais tinha – eu era toda sentidos) "e a minha dor ? eu sou egoísta sim, ouviu ? eu quero que ele fique porque eu não quero sentir dor ! eu não quero que ele morra como um passarinho , eu não quero sentir a falta dele ! eu quero meu pai vivo, com dores ou sem dores, mas eu quero o colo dele, os olhos dele, a mão dele nos meus cabelos nos sábados à tarde, a benção da 6o feira santa após o almoço de Páscoa, os absurdos que ele imagina e quer que eu faça... ( e eu não fiz o quadro para a Dra Gioconda, que ele me pediu...) eu o quero vivo ... eu o quero neste mundo, porque o resto... o resto eu desconheço..."
eu não chorei através dos meus olhos, mas minhas mãos crispadas e meu coração , já eram órgãos independentes em mim e soluçavam sem parar... voltei para o quarto engolindo o choro, não queria que ele me visse chorando... queria que se morresse como um passarinho a imagem que tivesse na retina fosse os meus olhos sorrindo. Fingi uma brincadeira, contei estóriasd e Humanos Encantados e Pequenas Princesas, falei sobre política (sem Paulo Maluf e FHC, pediu ele) sobre Cuba , sobre a próxima viagem que eu queria fazer (e ele falou para eu ir a Fernando de Noronha, que era o maior Paraíso da terra e as pessoas não se davam conta disto, vide eu que queria ir para as Ilhas Gregas !).
Fiquei ali levantando e descendo o encosto da cama... agora sobe... agora desce... conforme ele me pedia... a noite gelada e ele querendo que as enfermeiras trouxessem um cobertor para eu dormir...mas eu não queria dormir... fiquei olhando para Céu através da janela esperando que tudo desse certo.
Numa brincadeira infantil de antigamente, entre um intervalo de descanso coloquei o dedo na testa dele e disse: "diz agora o que você está pensando... sem tentar me enganar ! " ele esboçou um sorriso forçado, a boca seca , os dedos frios e falou "ah ,minha filha, eu estava aqui pedindo a Deus que me deixasse voltar pra casa"
acho que foi o último pedido, e enquanto ele gemia eu ficava ali segurando a mão dele com a minha luvinha de criança (nesta hora me dei conta, de como minhas eram pequenas...) .
Era uma hora da manhã, a noite estava fria, mas eu não sentia nada. Lá fora, a madrugada parecia tarde de outono, e algumas flores do lado de fora da janela, caiam de um galho alto , dezenas de florzinhas amarelas. De repente, a pressão se perdeu e os médicos tiveram que tirá-lo de perto de mim e encaminhá-lo para um outro andar, para uma outra sala. Ele foi de elevador, e eu corri pelos corredores escuros para encontrá-lo quando as portas se abrissem.
Quando me viu, pediu-me para trazer as coisas dele, que haviam ficado na mesinha de cabeceira, era para pegar os chinelos ... e ... e ... eu fui soltando sua mão ... sabendo que ele estava partindo...

Coração dormido


foi numa madrugada de domingo: 01/07/2001 que ele partiu...


... não sei que horas dormi, pois não escutei o telefone tocar. Lembro-me apenas do Sidney (meu irmão) entrando no quarto e me chamando. Assustada , ergui a cabeça e perguntei desesperada - O QUE FOI ? ACONTECEU ALGUMA COISA ? - ele disse-me que não e pediu-me para levantar e ir até a sala para a mãe não acordar... chegando lá ele me abraçou e começou a chorar... "ligaram do hospital"- era 1:34 no relógio do vídeo, na sala - e pediram para irmos até lá... " -
a sensação de NÃO... NÃO É VERDADE ELE DEVE TER MELHORADO... ( tudo mentira... a gente já sabia... ) mas ... QUEM SABE ELE PODERIA TER MELHORADO!!! ...
no hospital - o jovem médico que nos atendeu (Dr Roberto) - com uma voz que tentava ser suave, mas rasgava o silêncio ensurdecedor da noite pelos corredores vazios da madrugada – disse que infelizmente o Sr Aloisio foi a óbito à 1:15 da manhã.... o senhor Aloisio... o meu pai...

Coração em vão...



No rádio de um carro estacionado no pátio do hospital, com a manhã ainda a raiar, uma música tocava e me fez chorar repetindo baixinho ...
"Olhos fechados / Pra te encontrar / Não estou ao seu lado / Mas posso sonhar / Aonde quer que eu vá / Levo você, no olhar / Aonde quer que eu vá / Aonde quer que eu vá / Não sei bem certo / Se é só ilusão / Se é você já perto / Se é a intuição / Aonde quer que eu vá / Levo você, no olhar / Aonde quer que eu vá / Aonde quer que eu vá / Longe daqui, longe de tudo / Os sonhos vão te buscar / Volta pra mim, vem pro meu mundo / Eu sempre vou te esperar / Não sei bem certo / Se é só ilusão / Se é você já perto / Se é a intuição / Aonde quer que eu vá / Aonde quer que eu vá "...
e assim ele partiu e, os dias passaram e, lá se vão 8 anos sem ele...
* * *
ei moço bonito do meu coração, você morreu porque o coração cresceu demais e isto, não pode ser apenas científico, tem que ser maior do que o que os médicos dizem: "o Coração dele não resistiu de tão grande que ficou..." - na verdade, só as pessoas que nos amam muito, é que tem este poder de morrer com um coração enorme... de muito amor, com muito amor. o mundo daqui foi insuficiente para você , teve que subir ao céu para deixar de ser pai, marido e amigo pra virar estrela e continuar brilhando para que nós, que ficamos, possamos dormir em paz com a tua lembrança e com este trem solto dentro do peito ao qual chamamos saudade.

Você ainda é meu pai-amigo, meu herói antigo, meu salva-amor....

... aonde quer que eu vá ...

* * *

Coração puro


ELE faz parte de mim, pois DELE nasci.
Presente não está, mas guardado ficará.
Quem disse que MEU PAI não vive mais,
se eu ainda respiro, bato e tremo ?