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sábado, 8 de maio de 2010

Sábado sem sol

Minha Rua de Domingo

chove chove chove...
tem pingo desesperado batendo na varanda pra entrar...
sentada no sofá, olho pra fora...
e não deixo , não...

Vagalume de trança


Vagueia entre meus dedos, finos fios doirados de mel.

Tranço, destranço, tranço, destranço.

Há dias, em que Manoel de Barros, é apenas vagalume nos meus cabelos.


* * *

"Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário"
Manoel de Barros

terça-feira, 27 de abril de 2010

Dormício


Cama de Romeu e Julieta, por Bispo do Rosário


Dormício (ou passagem para outra vida)

Nesta cama, feita de linhas e delírios ela se deitava despida de dias e de noites. Nela, adormecia repleta de pesadelos. Nela, acordava gritando, uivando, chorando, toda arranhada, descabelada, desconfigurada. Nela, se escondia em silêncios invernais. Nela, contava ponto por ponto como se tivesse costurado cada alinhavo, cada babado, cada detalhe imaculadamente sagrado. Nesta cama dura, o mundo não lhe sorria, não lhe cabia e, Romeu, nunca apareceu para morrer envenenado ao seu lado. Nesta cama, de véu e voial, o seu cheiro era antigo, tal qual o de Tutankamon em sua máscara mortuária. Nesta cama de dossel de madeira, ela escondia livros puídos debaixo do colchão, entre as ripas apodrecidas e os lençóis desfeitos pelo tempo. Nela, escrevia, grifava e reescrevia, página por página a sua própria história. Sem convulsões, alucinava. Mas, nesta cama antiga, feita pelo Bispo, não havia maldição. E, sendo a Moça, uma nascida no dia do Dormício, mais tarde celebrado como Assunção de Nossa Senhora, deveria ser sim, a mais católica e fervorosa das Santas Moças de Todos os Tempos. Mas, não era. E, no Rosário do Bispo se fiava. Louca, não, mas feito retrós de linha, se enrolava e desenrolava em querências e ardências, inquietações e motins, fazendo a si mesma, perguntas em forma de cavalo-marinho. Até que exaurida, adormecia, na cama que fora feita para a Julieta do Romeu.

domingo, 11 de abril de 2010

Paris, meu amor.



Gosto da minha vida inventada. Nela, sou moça fina de Paris. Não da Paris de hoje, mas daquela... de antigamente. 

Baudelaire foi meu caso mais sério. Mas, minha vida inventada não permitia tantos apegos, chamegos sim, eternidades não. Dela brotou Paraísos Artificiais...

Rodin fez para mim, A Porta do Inferno... porque vocês devem imaginar, não sou moça fácil de iludir não. Se é pra viver do meu amor, precisa me abrir as portas (do coração, do intelecto, das artes ou do Inferno), Rodin escolheu a do Inferno para eu morar ... e entramos juntos, até que Camille Claudel apareceu e eu parti.

Jean-Paul Charles Aymard Sartre.

Nunca me importei com  Simone, nunca me importei com a idade, nunca me importei com nada... Com Jean-Paul eu era a mais real das mulheres, eu existia e bastava-me.

Flaubert, aquele rufião, me eternizou em Madame Bovary (eu era Emma e Rodolphe me amava!)... bons tempos, aqueles.

Minha vida inventada comporta tantas loucuras, tantas luxúrias ... mas, agora não é a hora de abrir meus diários secretos, mais tarde, à noite, quando todas as cortinas estiverem fechadas eu passarei por aqui, para contar sobre Paris, aquela antiga ... na qual eu colocava espartilhos vermelhos e me perdia nos Bals Masqués.


Ligações Perigosas

imagem: foto de arquivo pessoal sonia alves dias

Sou uma Marquesa (não a de Merteuil, mas quem sabe ela). Romântica incurável, acredito que deveria esperar tudo dos outros (e doar sempre o melhor de mim). Mas, assim, como nas Ligações Perigosas, a gente nem sabe quem é, quem o outro é, quem seremos juntos, como seremos dia à dia, um após o outro.

O melhor de não saber quanto tempo viveremos, é acreditar que hoje é o nosso último dia e portanto nada mais importa.

Sou uma romântica incurável, não quero nunca que ninguém arranque isto de mim...

domingo, 4 de abril de 2010

Aroma de hortelã, cor de romã



Amor para ela, era hortelã passeando na boca feito chiclé de bola, mesmo sem nunca ter beijado alguém de verdade. O frescor que passeava pela sua língua a fazia imaginar que beijar era assim, gostoso como hortelã novinho, bem fresco, bem leve, suave, quase pétala.

Ela sonhava com um Romeu que pegaria uma romã do pé e ao abrir a casca grossa a presentearia com aqueles pequenos diamantes rosáceos cristalinos, mágicos.  Se perderia de amores e faria "ele me quer" comendo cada semente delicadamente.

Claro que "ele" só existia no pensamento dela, mas, o dia que aparecesse ela saberia...

... teria aroma de hortelã - cor de romã, e aos seus pés cairia, dizendo:


"Encantado, mademoiselle.
Para sempre teu, Romeu."