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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Clair de Lune

"A Valsa" (1895) CAMILLE CLAUDEL

Moço de olhar de pedra, me toma pra dançar. Baila comigo sob o luar de Debussy. A noite é longa e minha loucura por ti, devasta minh'alma. Quero-te real, mestre verdadeiro. Não somente pés, braços e dorso lírico. Quero teu peito, nú por inteiro. Habitar teu coração sem segredos, sem mágoas. Pega-me pela cintura moço erudito. Sente minhas vértebras, conta cada osso da minha costela. Passeia teus lábios sob o lóbulo da minha orelha, deposita nele palavras de mil vertigens. Em musa, me transforma, me deforma, me afronta e me alumia. Olha moço, eu te trago braços longos para encantar teus quadris. Pega meu pulso, sente meu cheiro, me arrasta contigo. Derrama-te sobre mim. Faça-me deitar mármore e acordar carne. Valsa comigo, Debussy.

por Sônia A.Dias , a Letreira

* * *


estou relendo o livro Camille Claudel: Criação e Loucura da Liliana Liviano Wahba, por isso estou me sentindo tão a flor da pele. A obra de Camille se transmuta com a de Rodin. Difícil saber onde começa um e termina outro. Camille foi modelo e amante por longos anos. E grande parte dos gestuais, vem desta relação conflituosa e afetiva entre dois gênios da arte. Quando vejo um trabalho como A Valsa, tenho vontade de escrever tanta coisa... imaginando tanta coisa... sentindo tanta coisa...

Esta semana postei aqui uma obra do Bernini e o Marcantonio deixou um comentário que me fez querer escrever um livro que começasse com a seguinte frase "Proserpine deve ter adormecido mármore e despertado carne." O livro ainda não pari, mas o trecho ecoa em mim, o tempo todo...

Esta valsa é de quem ?

"A Valsa" (1895) CAMILLE CLAUDEL


A Valsa - A M***  

Tu, ontem  
Na dança  
Que cansa,  
Voavas  
Co’as faces  
Em rosas  
Formosas  
De vivo,  
Lascivo  
Carmim;  
Na valsa,  
Corrias,  
Fugias,  
Ardente,  
Contente,  
Tranqüila,  
Serena,  
Sem pena  
De mim!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues  
Não mintas...  
- Eu vi!...  

Valsavas:  
- Teus belos  
Cabelos,  
Já soltos,  
Revoltos,  
Saltavam,  
Voavam,  
Brincavam  
No colo  
Que é meu;  
E os olhos  
Escuros  
Tão puros,  
Os olhos  
Perjuros  
Volvias,  
Tremias,  
Sorrias,  
P’ra outro  
Não eu!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues,  
Não mintas...  
- Eu vi!...  
Meu Deus!  
Eras bela  
Donzela,  
Valsando,  
Sorrindo,  
Fugindo,  
Qual silfo  
Risonho  
Que em sonho  
Nos vem!  
Mas esse  
Sorriso  
Tão liso  
Que tinhas  
Nos lábios  
De rosa,  
Formosa,  
Tu davas,  
Mandavas  
A quem?!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  

Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues,  
Não mintas...  
- Eu vi!...  
Calado,  
Sozinho,  
Mesquinho,  
Em zelos  
Ardendo,  
Eu vi-te  
Correndo  
Tão falsa  
Na valsa  
Veloz!  
Eu triste  
Vi tudo!  
Mas mudo  
Não tive  
Nas galas  
Das salas,  
Nem falas,  
Nem cantos,  
Nem prantos,  
Nem voz!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
Não mintas!...  
- Não negues,  
- Eu vi!...  
Na valsa  
Cansaste;  
Ficaste  
Prostrada,  
Turbada!  
Pensavas,  
Cismavas,  
E estavas  
Tão pálida  
Rosa  
Mimosa  
No vale  
Do vento  
Cruento  
Batida,  
Caída  

Sem vida  
No chão!  
Quem dera  
Que sintas  
As dores  
De amores  
Que louco  
Senti!  
Quem dera  
Que sintas!...  
- Não negues,  
Não mintas...  
- Eu vi!...  





Não negues... tu nem imaginavas que este poema fosse de Casimiro de Abreu e datado de 1858, não é ?

Para mim, para hoje, me serve.

sábado, 1 de maio de 2010

Camille, baixou em mim.


Camille Claudel


“Minha Camille, esteja segura de que não tenho nenhuma outra amiga e toda minha alma lhe pertence” - escreve Rodin.

Camille responde: Deito-me nua para imaginar que está ao meu lado, mas quando acordo já não é a mesma coisa”.