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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sudoeste



Sudoeste
Adriana Calcanhotto
Composição: Adriana Calcanhotto/ Jorge Salomão)

... tenho por princípios  
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas 
O tempo todo  
Se em certos dias o vento 
Quer derrubar tudo? ...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Remoto controle


Eu era apaixonada pelo Renato Russo, não "paixonite" aguda, era amor mesmo. Eu sentia todas as emoções cantadas nas letras que ele compunha, eu me doia em refrões de amor, eu me sentia perdida, totalmente a mercê daquele moço que tinha os olhos tristes e uma voz capaz de seduzir até as serpentes da Medusa.
Era ele dono de tantas verdades enquanto eu adolescia... Era repleto de referenciais literários e licenças poéticas. Bradava lutas sem armas, guerreava com palavras. Viver naquela época foi um privilégio e uma sorte. Renato Russo era minha asa norte.
A Calcanhoto eu conheci já adulta de alma. Não era mais a adolescente cheia de mistério e de desencontros comigo mesma. Ela cantava outras dores, outros espaços, outras cores e nela me encontrei. Houve um tempo em que eu queria ser ela (cantar como ela, ter aquela voz curta, aquele timbre cadencioso, aquela leveza e aquela tristeza). Lógico que não fui, nem poderia.
Seu repertório não era cheio de bravatas. Nela o samba, a bossa nova, o pop rock e as baladas formavam um novo conjunto de obra com arranjos diferenciados. Era antropofágica, e nos devorávamos. Eu a ela, ela a mim.
Não sei se em algum momento imaginei que poderia ver estes dois ícones da minha história, juntos. Mas, hoje, sei que eles já estiveram numa mesma canção, num mesmo tom, no mesmo refrão e eu me sinto bobamente feliz... emocionada...

Esquadros
Composição: Adriana Calcanhoto

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus...

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

ah ah...

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sudoeste



...tenho por princípios
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas
O tempo todo
Se em certos dias o vento
Quer derrubar tudo? ...
Letra: Adriana Calcanhoto e Jorge Salomão

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Um dia desses...

Show Maré-Adriana Calcanhoto-Citibank Hall 06/2008

Uma concha enorme, do lado esquerdo do palco, sem som dentro dela. Adriana vermelha como coral em maré cheia. Cavalos marinhos povoando o céu, mas não voando pelo mar adentro, nem cavalgando pelo fundo azul. As sereias imaginárias dançando notas de calypso, Waly Salomão em cada canto. Concreta esta moça, de letras bem feitas e olhos azuis. Distante de todos, e ao mesmo tempo declamando frases que parecem nos vestir perfeitamente.
Impossível não querer entrelaçar dedos e sussurrar segredos diante de cada nova canção. Sensação daquelas de dejavú. Tudo parece ser minimamente planejado. Calcanhoto não tem muitos rompantes dentro dela. Toda sua fúria é dita comedidamente, pausamente e com meios-sorrisos. Não é fácil encantar assim, e sendo assim ela encanta. Sereia das boas, acredito eu.
Ao sair da coxia, seu movimento não é de mar bravio. Serena e malemolente ela chega com seu olhar de viés. Sauda o público, a casa cheia : "Boa Noite São Paulo. Muito obrigada e boa noite... boa noite... é um prazer estar aqui. Vocês devem achar que eu digo isto em todos os lugares onde vou, e digo mesmo, só que aqui .... é de verdade". Luzes, palmas, gritos, gestos mínimos pra início imediato.
O néon corta o palco de um lado ao outro, verde relâmpago, lua cheia. E a água insiste em ficar lá, parada. E, os cavalos marinhos, permanecem no céu, decalcados. Em movimentos lentos, quase nada, poesia em ré-maior. Cada fim de canção, o corpo projetado pra frente, a canção entre dentes, efeitos marinhos em roupa ondulante.
O choro da cuíca, o violoncelo entre as pernas, um Verão in rock, um samba pra Martnália. O ar quase blasé, Esquadros misturado a Três... Assim Sem Você e assim Sem Saída... um show inteiro de canções novas, canções conhecidas.
Essa moça tem um jeito de comover que assusta. Na boca dela as palavras parecem mais frias, quase cortantes. De fino humor, imagino-a às vezes, presa num poema dos Anjos (do Augusto), aquele que escreveu A Louca "Quando ela passa: - a veste desgrenhada, O cabelo revolto em desalinho, No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Moça, tão moça e já desventurada; Da desdita ferida pelo espinho, Vai morta em vida assim pelo caminho, No sudário de mágoa sepultada. Eu sei a sua história. - Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso - O segredo d’um peito torturado - E hoje, para guardar a mágoa oculta, Canta, soluça - coração saudoso, Chora, gargalha, a desgraçada estulta."
Não sei bem o que é, que nela me fascina e me adormenta. Tenho a sensação que dentro dela há algo triste, pois não é possível tal criação sendo feliz em tempo integral. As melodias são quase sempre doridas e as perdas inimagináveis. Mesmo quando ela tenta comer Caetano, a antropofagia não mistifica o prazer. É um tanto quanto, de Teu Nome Mais Secreto... "Cavo e extraio estrelas nuas de tuas constelações cruas"...
E, de dentro dela, parece brotar esta imensidão de imagens, estes fragmentos de memórias, estas cores de Frida que claram cores. Em sua maré, traz Continentino com a escaleta ao fundo, e Medina cálido diante de Lancellotti e de Costa em sons profundos.
Há instantes, que dá uma vontade danada de chorar. Sabe-se lá porque... canto de sereia é assim, chama a gente e não espera para partir. De letra em letra, vamos mapeando nossos sentimentos e nos apropriando de notas e de canções, envoltos pelo mesmo mar, pela mesma areia.
Finda o show com Vambora e a cantarolando baixinho "na cinza das horas... dentro da noite veloz" tenho a sensação de ouvir um poema antigo (de Drummond) que termina assim "Eu não devia te dizer , mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo."
Linda e delicada, reverencia o público como se Pequeno Príncipe fosse. E, em minhas lembranças, agora mais do que antes ela é a rosa, não o Príncipe que viaja por espaços siderais, mas a pequena rosa, presa na redoma de vidro e ainda assim capaz de tanta poesia dentro dela.
"Meio mulher, meio peixe, entre o fundo e a beira, e que detém o canto, no sentido de canto primeiro, do nascimento do canto, anterior à palavra - Adriana Calcanhoto"